Centenas de quilos de açucar são transformados em bonecos para ofertas nos Impérios do Espírito Santo.

Na ilha Terceira, nos Açores, centenas de quilos de açúcar são transformados, todos os anos, em ofertas ao Espírito Santo, mas já são poucas as artesãs que conhecem a receita do alfenim.

Por esta altura do ano, no sétimo e no oitavo domingos a seguir à Páscoa, assinalam-se os bodos do Espírito Santo e a população ainda muito devota da terceira pessoa da Santíssima Trindade oferece peças de alfenim, nas mais diferentes formas, como promessas.

O alfenim entregue nos Impérios do Espírito Santo é depois arrematado e o dinheiro reverte a favor das festas, nas quais, para além da animação e da religiosidade, são distribuídos pão, carne e vinho.

Manuela Cardoso é auxiliar de educação num colégio, mas nestas duas semanas tira férias para dar resposta às encomendas de alfenim, Mesmo assim, chega a ter de recusar pedidos.

Em vésperas do segundo bodo, no sábado passado, a artesã não tinha mãos a medir. Enquanto ia respondendo às perguntas, no fogão já tinha dois tachos ao lume com o açúcar e, na mesa da cozinha, a lista de encomendas deixa perceber que a noite vai ser longa.

O alfenim (palavra que vem do árabe “al-fenid” e quer dizer aquilo que é branco, alvo) é feito apenas de açúcar, água e vinagre, mas se passar do ponto transforma-se em rebuçado. Moldá-lo em imagens fiéis à realidade exige uma técnica que não está ao alcance de todos.

Manuela Cardoso começou a ver a mãe moldar alfenim aos nove anos e aos 11 já conseguia fazer as peças mais simples.

Natural de São Jorge, a mãe de Manuela não conhecia esta receita típica das ilhas Terceira e Graciosa, mas quando se mudou para a Terceira, uma das filhas, hoje emigrada nos Estados Unidos, aprendeu a fazer alfenim com uma vizinha e começaram a confecioná-lo para os bodos e, depois, para as pastelarias.

Hoje, é Manuela quem dá continuidade ao negócio da mãe, que com 80 anos já não molda o alfenim. A experiência de 18 anos de encomendas faz com que conheça o ponto do açúcar só pela cor, pelo cheiro ou pelo ouvido.

“A maioria das vezes já nem tiro o ponto”, disse à Lusa, explicando que é ao colocar uma colher da calda em água que percebe se o alfenim está pronto a moldar.

Antigamente, os truques eram mantidos em segredo e até se chegaram a inventar mitos, porque a venda de alfenim era uma fonte de rendimento importante para as famílias, mas hoje já restam apenas meia dúzia de artesãs na Terceira.

“A procura não morreu, a oferta é que está a ser pouca”, frisou.

O preparado leva cerca de 20 a 25 minutos ao lume e quando atinge o ponto é vertido para uma bacia untada com manteiga, que está dentro de outra com água fria, para ir arrefecendo a massa.

Manuela vira primeiro a pasta de açúcar com uma faca, para ganhar consistência e, em poucos segundos, quando atinge uma temperatura suportável pelas suas mãos, começa a puxá-la.

“Quanto mais voltas se dá com ele, mais branquinho ele fica. É na mistura do ar com a massa que ele ganha a cor branca”, explicou, salientando que as mãos chegam a ficar com calos, porque o açúcar é trabalhado ainda muito quente.

A imagem mais comum do alfenim é a pomba branca, que simboliza o Espírito Santo, mas as promessas estão muitas vezes associadas a problemas de saúde, por isso, em momento de aflição, são encomendadas peças de partes do corpo.

Pelas mãos de Manuela Cardoso já passaram pés, pernas, mãos, braços, peitos, gargantas e cabeças de alfenim. Estes ano pediram-lhe um pulmão, o que a obrigou a pesquisar na internet para que a peça ficasse o mais semelhante possível à realidade.

Os pedidos mais frequentes são as meninas e os meninos de corpo inteiro, que se adequam a diferentes maleitas e a outro tipo de promessas.

Quando era mais nova, a artesã moldava primeiro as imagens em plasticina, mas hoje, com a experiência, as peças mais comuns saem com rapidez das suas mãos, ainda que admita que são as mais complexas, como uma imagem de São João, que esteve na montra de uma pastelaria, que lhe dão mais gozo fazer.

Antigamente, o alfenim era feito apenas pelas festas do Espírito Santo ou para ofertas em casamentos e batizados, mas hoje, já integrado na lista de produtos regionais certificados, é também muito procurado por turistas.