O tema identificado pelo Papa Francisco foi exposto pelos Padres Adriano Borges e Júlio Rocha  e apela a “um exame de consciência” de carácter penitencial.

Os Cursistas do Movimento dos Cursilhos de Cristandade (MCC) iniciaram a sua caminhada quaresmal com um encontro formativo que teve lugar esta sexta feira à noite, no Seminário Episcopal de Angra,  sobre as 15 doenças  que ameaçam a igreja e a transformam “num corpo doente”, segundo o Papa Francisco num discurso dirigido à Cúria Romana, no Natal passado.

“Nada melhor, para este início de caminhada quaresmal, do que usarmos o catálogo das ditas doenças para fazermos um exame de consciência. Não se trata de apontar nomes, ou situações concretas, mas  de um alerta para perigos, para não cairmos em tentação” frisou o Pe Adriano Borges, que juntamente com o Assistente Espiritual do MCC, Pe Júlio Rocha, orientou a primeira reflexão do Movimento nesta Quaresma.

O Ecónomo da Diocese, que começou por lembrar a importância dos movimentos para a dinâmica da Igreja e a disponibilidade dos cursistas, em particular, para serem “testemunhas de Jesus em todos os ambientes”, falou de sete doenças ou tentações que mais do que “uma cura” precisam “ser evitadas”. A começar pelos sentimentos de “imortalidade ou indispensabilidade”.

“Todos somos importantes e necessários” mas todos devem recordar-se “que somos pó” e que a assumpção da “pequenez faz parte da caminhada espiritual  e do serviço aos irmãos”, disse o Vigário Paroquial do Curato de São Carlos, em Angra do Heroísmo.

Entre as doenças refletidas pelo Pe Adriano Borges destaque para o “excessivo funcionalismo e planeamento” e “o martalismo”, duas doenças intimamente ligadas à ação e ao desejo de fazer coisas que nos podem afastar “da oração” ou “do “encontro”.

“Preparar tudo bem é necessário e importante para que as coisas corram sempre pelo melhor. Darmos o máximo de nós mesmos é uma exigência fundamental para as actividades do nosso movimento  mas sem cair na tentação de querer encerrar e pilotar a liberdade do Espírito Santo, que é sempre maior, mais generosa do que toda a planificação humana”, disse o sacerdote.

A doença do “empedernimento mental e espiritual”, também não foi esquecida sobretudo porque “as pessoas são sempre muito mais importantes do que os esquemas, do que os livros”, alertou o sacerdote lembrando que “abrir o nosso coração e a nossa mente a Deus e aos nossos irmãos é a única maneira de se tornar verdadeiro discípulo de Jesus”.

O responsável pelo sector financeiro diocesano falou, ainda, da doença da “má coordenação” que deve ser ultrapassada pelo “espírito de comunhão e de equipa” que, embora, não apague as diferenças, há “um tempo e um lugar próprios” para as dirimir.

“Se amamos a nossa Igreja, é dentro dela que a tentamos melhorar. Atirar pedras, dividir as pessoas, é um mau serviço a qualquer iniciativa”, mas “é preciso humildade para fazer ou aceitar aquilo com que não concordamos”, concluiu falando ainda de uma das mais badaladas doenças identificadas pelo Papa Francisco o  “alzheimer espiritual” ou seja, “o esquecimento da história da salvação, da história pessoal com o Senhor, do primeiro amor”.

Aliás, a este propósito lembrou aos cursistas que é sempre necessário atualizar permanentemente a fé e “não deixar que com o passar do tempo a água fresca do Espírito de Deus vá ficando morna e sem sabor”.

Finalmente, a propósito das doenças da “rivalidade e do orgulho”, também enumeradas pelo papa Francisco, o Pe Adriano Borges pediu mais humildade e sentido de serviço.

“Temos de ter muito cuidado com as imagens que fazemos de nós mesmos, pensando muitas vezes que podemos ser os melhores e, outras tantas vezes, desprezando o trabalho e as qualidades dos outros”.

Das  15 doenças identificadas pelo Papa, oito foram abordadas pelo Assistente Espiritual Diocesano do MCC que, aliás se referiu a este momento como “um apontar de baterias para as nossas consciências para vermos de que males padecemos como membros da Igreja viva”.

E das doenças elencadas, o Pe Júlio Rocha,  destacou três “mais importantes”. A primeira delas foi “a esquizofrenia espiritual” que aponta para uma “dupla” vivência cristã, em que cada um de nós tem a sua fé para apresentar aos outros, procura “comportar-se como um bom cristão, fazendo coisas” mas depois “quase não reza”.

O professor de Teologia Moral no Seminário Episcopal de Angra denunciou o perigo das “bisbilhotices, mormorações e críticas”, uma “doença muito católica que por vezes nos transforma em homicidas a sangue frio da fama dos outros”, o que nos remete para uma terceira doença “a dos círculos fechados”, frequentados “por alguns que acham que o seu grupo é mais importante do que tudo desviando-se e esquecendo-se do essencial: Jesus”.

O Pe Júlio Rocha apelou ainda para o testemunho dos cristãos e sobretudo para terem em consideração as suas “especiais” responsabilidades.

“Temos de ter em conta que como cristãos tornamo-nos muito visiveis e por isso sempre que fazemos qualquer coisa mal estamos muito mais vulneráveis” e “as nossas fraquezas podem comprometer toda a estrutura”.

O responsável pela organização destes encontros formativos falou também de outras doenças como “a mundanidade”, “o exibicionismo” ou “a vaidade”.

O tema das doenças nomeadas pelo Papa Francisco no Natal já esteve, de resto, em análise nos dois turnos do Clero diocesano,  que decorreram em São Miguel e na Terceira na última semana de janeiro e na primeira de fevereiro, respetivamente, orientados pelo padre Claritiano Abel Pina Ribeiro.

Estes encontros mensais formativos do MCC, destinados exclusivamente aos cursistas e  subordinados sempre a um tema de estudo previamente definido, constituem uma oportunidade formativa para todos os membros do Movimento. No mês passado foi debatido o Concilio Vaticano II, numa conferência proferida pelo Pe Abel Vieira, da Praia da Vitória. No próximo dia 13 de março terá lugar uma reflexão sobre a Fecundidade do Casal, para além dos filhos, que ficará a cargo da psicóloga Raquel Oliveira, docente convidada do Seminário Episcopal de Angra.

Os Cursilhos de Cristandade nasceram nos anos quarenta em Palma de Maiorca, Espanha. A história do MCC está intimamente ligada à história de Eduardo Bonnín Aguiló, um homem profundamente marcado por uma “inquietação apostólica”.

O MCC está nos Açores há mais de meio século, hoje com particular vitalidade nas ilhas Terceira, São Miguel e Santa Maria, embora já se tenham realizado perto de quatro centenas de cursilhos, em praticamente todas as ilhas dos Açores, à excepção do Corvo.