Diretora diocesana da Cáritas diagnostica e projecta iniciativas no âmbito da luta contra a pobreza

Na semana Nacional da Cáritas, cujo dia principal se comemora no domingo 28, o Sítio Igreja Açores foi falar com a diretora diocesana da organização católica. Anabela Borba lembra que são precisas duas gerações para vencer este flagelo dramático da pobreza , principalmente a pobreza infantil; ainda mais se tivermos em consideração que há dificuldades acrescidas em agregados familiares típicos da classe média, agravados pelo desemprego e perda de rendimentos.

 

Sítio Igreja Açores-  Estamos a viver a Semana da Cáritas. Há várias iniciativas ao nível diocesano. Na diocese de Angra, como vai ser vivida esta semana?

Anabela Borba- Este ano, para a Semana Nacional da Cáritas, sob o tema “Cáritas: Coração da Igreja no Mundo”, organizámos um programa que, para além do habitual peditório público, contará, no dia 23 em São Miguel com um Seminário sobre a “Ação missionária da Igreja”, e no dia 26, com a realização de um Espetáculo Solidário em Angra do Heroísmo. Para concluir a Semana Cáritas teremos o Dia Cáritas no dia 28, com uma Celebração Eucarística, seguida de vigília à Imagem Peregrina de Nossa Senhora de Fátima na Sé Catedral, com a participação dos utentes, núcleos, colaboradores e voluntários da Cáritas.

 

Sítio Igreja Açores- O lema deste ano é “Cáritas, o coração da Igreja no mundo”. O que é que isto significa?

Anabela Borba- É um marco importante e com significado, o lema deste ano: Caritas, Coração da Igreja no Mundo; impelidos a viver o dinamismo da misericórdia, o nosso coração não se pode fechar. É um apelo para que o coração de cada cristão deverá tornar-se num coração semelhante ao de Maria, capaz de ver e de sentir as dores dos outros; é um coração que só sabe viver no Mundo. O nosso coração nunca se pode alhear da sorte dos homens, mulheres e crianças a que chamamos nossos irmãos e irmãs. O nosso coração, o coração da Igreja, está no Mundo em que vivemos, cuidando da criação, das pessoas pobres, sós, desanimadas, tristes, sem esperança. Que esta semana nacional da Cáritas permita ser uma chamada de atenção ao outro, ao cuidado do outro.

 

 

Sítio Igreja Açores-  A Cáritas esteve particularmente envolvida no último trabalho desenvolvido pela pastoral social a propósito da pobreza infantil na Região. Que análise faz desta problemática?

Anabela Borba- A pobreza em geral é sempre um fenómeno terrível, porque humilha, entristece, destrói laços e destrói muitas vezes a saúde. No caso da pobreza infantil a situação é ainda pior, muitas vezes a falta de recursos das famílias, caí sobretudo sobre os mais pequenos, levando a que tenhamos crianças mal alimentadas, e isso reflete-se em tudo o resto, mas desde logo na aprendizagem, na socialização, etc,  etc. Os números em Portugal e na Região, são alarmantes, uma em cada quatro crianças é pobre. Por isso, estamos conscientes de que a infância em Portugal não é um período de vida feliz para muitas das nossas crianças, porque vivendo em situação de pobreza e exclusão social encontram-se privadas das mais variadas dimensões de bem-estar, e de desenvolvimento.

Os custos humanos da pobreza infantil, deixa marcas não apenas nesta geração mas nas futuras e no tecido humano e social do país e da região.

Infelizmente estão quase sempre associados à pobreza outras questões não menos complexas, como a violação de direitos, abusos, violência, traumas psicológicos e uma escolaridade medíocre traçam muitas vezes um destino quase certo de inferioridade social.

 

Sítio Igreja Açores- Apesar de alguns sinais de retoma a verdade é que há imensa pobreza em Portugal e nos Açores há cada vez mais a pobreza escondida. Que percepção tem desta realidade e que números pode avançar?

Anabela Borba- A população Açoriana é claramente massacrada pelo flagelo da pobreza, infelizmente esta situação tem tendência a agravar-se, a população vive cada vez mais de prestações sociais nomeadamente RSI e subsídio desemprego que apresentam valores muito baixos, o valor auferido por estes apoios não é suficiente para fazer face às despesas básicas de subsistência das famílias, grande parte das famílias que recorrem à Cáritas depois de pagas todas as despesas correntes (renda de casa, agua, luz e gás) ficam sem dinheiro para cobrir as despesa relacionadas com a alimentação, a capitação média destas famílias ronda os 50€ mensais.

 

 

Sitio Igreja Açores- A situação tem piorado?

Anabela Borba- Em 2015 a Cáritas ao nível Açores realizou 4009 atendimentos, tivemos 537 novos casos, foram atribuídos 2182 cabazes alimentares, apoiamos 25 crianças através do Projeto Prioridade às Crianças, este projeto visa apoiar crianças até aos 18 anos de idade, os apoios mais solicitados são na área da saúde, apoiamos 297 famílias através do Fundo Social Solidário e Fundo de Emergência Social, estes apoios são essencialmente apoios na área da saúde, educação, despesas correntes e alimentação. Estes são os dados que temos das caritas que nos envia elementos, as cáritas paroquiais, fazem muita coisa, fazem muito bem, que não chega ainda de forma sistematizada, ás sedes.

A crise económica que se instalou em Portugal nos últimos anos fez disparar o número de “ novos pobres”, que passaram a solicitar ajuda nas diferentes instituições de solidariedade social, nos últimos dois anos houve um aumento de pedidos de ajuda de pessoas com formação académica superior, situação pouco frequente há cerca de 3 anos atrás.

À medida que a pobreza aumenta, a importância das instituições de solidariedade social cresce porque elas podem ser fundamentais para apoiar os carentes a ultrapassar estes tempos mais difíceis.

 

 

Sítio Igreja Açores- A pobreza está a crescer na Região?

Anabela Borba- O nº de pobres nos Açores esta aumentar, as principais causas que contribuem para este aumento é essencialmente a falta de investimento na região. Não havendo investimento económico não se gera a criação de postos de trabalho, o que significa que vamos ter cada vez mais famílias a viver em situação de precariedade socioeconómica, o maior fator de risco da pobreza é sem dúvida o desemprego.

Atualmente não dispomos de dados sobre o número de “pobres envergonhados”, sabemos que são pessoas que integram agregados familiares e que se encontram em situação de vulnerabilidade socio económica e que tentam ocultar por vergonha, a sua nova situação, mas são muitas pessoas, muitas famílias.

Problemas como o desemprego, endividamento estão infelizmente,  a contribuir para agravar a situação., muitas vezes não nos procuram, pois não querem que ninguém saiba a situação em que se encontram, outras vezes também sabem que nos nossos recursos são limitados, não dando por exemplo para pagamento de empréstimos…. etc

De entre as pessoas que se encontram em situação ativa de emprego muitas estão a frequentar programas de emprego ou trabalham em regime de part-time na área das limpezas ou agricultura, o vencimento auferido varia entre os 200€ e 556,50€.

Os indivíduos integrados nos programas de emprego, após terminarem o programa voltam novamente a procurar os nossos serviços. Os programas de emprego minimizam a situação socio económica da família apenas por um curto espaço-tempo, estes não são mais que um “fogo em fase de rescaldo”, pois estão sempre na iminência de reacender.

 

 

Sírtio Igreja Açores- Vivemos o ano santo da misericórdia e o lema da semana da cáritas é “Coração da Igreja no Mundo”. Sabemos que uma fé sem obras é estéril. Mas também sabemos que cada vez há menos gente com possibilidade de dar e, que por outro lado, precisa. Como é que se resolve esta equação?

Anabela Borba- Difícil equação sem dúvida.

A questão está na desregulação, veja parece-me uma questão transversal, são os monopólios nos mais variados setores, desde a produção alimentar, à distribuição, é a questão do setor bancário e financeiro. Isto é, são boa dúzia de pessoas que controlam o resto da população do mundo. Algumas sociedades transcontinentais privadas dominam o mercado agroalimentar decidem onde e quantas pessoas vão morrer com fome ou com doença. Essas sociedades controlam a produção e comercialização dos fatores de produção, adubos sementes, pesticidas, que os agricultores precisam comprar, são elas, de determinam o preço a que o produto é adquirido ao agricultor.

Terminei à poucos dias de ler o livro do Jean Ziegler, “Destruição em massa – geopolítica da fome”. É perfeitamente assustador ver como o livre arbítrio do mercado, livre de qualquer constrição normativa, e inclusive de controlo social, matam, e matam por meio da miséria e da fome. O mundo está de facto muito doente.

O problema da pobreza e da fome é essencialmente um problema de má distribuição de riqueza no planeta, entre regiões, entre países e entre pessoas. Falta vontade aos Estados, falta vontade ao cidadão comum, falta liberdade aos escravos…

Um proverbio chinês diz que “os muros mais sólidos, desmoronam-se por causa de pequenas fissuras”. Então, provoquemos tanto quanto possível, fissuras na ordem atual do mundo.

É que pese embora a necessidade de socorrer quem tem fome, nós cristãos temos que lutar por mais justiça.

Voltando à sua pergunta, pede-se a cada pessoa que dê um pequeno contributo, pois muitos pequenos contributos, podem ajudar a minimizar o sofrimento de algumas pessoas. Ninguém é tão pobre que não tenha nada para dar…

 

Sítio Igreja Açores- O Governo regional tem implementado algumas medidas sociais, mas intervir na pobreza implica também criar uma sociedade economicamente mais desenvolvida com empresas e com um tecido empresarial robusto. Na sua perspetiva o desenvolvimento dos Açores tem sido adequado no sentido do combate à pobreza?

Anabela Borba– Sem uma económica mais forte, sem desenvolvimento tecnológico e científico, sem uma educação exigente e responsabilizadora, sem regulação, sem o justo pagamento pelo preço dos produtos aos produtores, as políticas sociais só minimizam a pobreza, não a combatem. Depois à que criar politicas inclusivas.

 

 

4- A Cáritas está particularmente dinâmica na ilha Terceira; também vai fazendo algumas coisas em São Miguel, e nas outras ilhas?

A Cáritas nos Açores, está frágil, embora seja bom que algumas Cáritas tenham mais dinâmica, o que interessa é o todo. E este todo está frágil, claro que a dispersão geográfica não ajuda, temos falta de pessoas disponíveis e comprometidas para dinamizar a Cáritas nas diferentes ilhas, em alguns lugares temos pouca ligação às pastorais, como que se fossemos uma outra qualquer instituição que não a Igreja. Mas vamos dando pequenos passos, temos que ajudar na formação dos agentes pastorais, e temos que nos articular melhor com as ouvidorias e com as paróquias, ao mesmo temo que nos articulamos com o Estado, no nosso caso com a Região, com os Municípios, com as Empresas para colaborar nas políticas de inclusão, promotoras de desenvolvimento de criação de emprego.