Pelo padre Nuno Pacheco de Sousa

«Fiz de mim o que não soube»

É talvez um inusitado e arriscado começo para tentar falar sobre vocação e natividade. Expostas estas duas premissas que nos parecem tão absortamente equidistantes por relação à citação roubada a Álvaro de Campos na Tabacaria de Pessoa, parece-me feliz se partindo dela, pudermos falar do humano exemplo de Maria perante tão sublime epifania, anúncio, que nos faz exultar nesta época do ano.

A nossa própria vocação enquanto católicos talvez parta exatamente da capacidade de acolhermos na nossa totalidade aquilo não sabemos. Uma forma de recriação passiva, quanto ativa, não como algo imposto ou que nos caia em cima como um fado. Seja talvez então a sugestão de uma fania que quer alterar o percurso quotidiano dos nossos dias, da nossa vida, como aconteceu com Maria de quem Jesus haveria de ser dado à luz do nosso olhar, da nossa fé, da nossa contemplação. É por isso a Quaresma, que agora vai findando e que nos levará às portas do Tempo Pascal, um recolher, uma coleta, um conjunto de pequenos nadas que se dão na normalidade dos dias passados e que se nos abre com uma espantosa novidade.

Um conjunto de poucos que vamos recoletando ao longo do traçado do nosso pequeno caminho de tentativas e erros, de impreparação e de hesitações, como, muitas vezes, o coletor de coisas aparentemente inúteis vai somando na sua sacola, aquilo que aos olhos dos outros é sempre uma soma de loucura. São os acidentes que nos fazem tão belos, que nos juntam das periferias e nos devolvem ao mais íntimo do grande Criador. Somos o jardim com capacidade de urdir o fulgor do anúncio: do secreto e íntimo anúncio, qual tear a alvoroçar o mundo na sua capacidade recreativa.

Somos o jardim por onde o vento passeia. Onde, sem atendermos, tomamos as decisões da vida. Um jardim é um desassossego semelhante ao do silêncio monástico. Uma disponibilidade e um partir para o mais além, para a cosmos, para a grande universalização do Bom e do Belo: um parto para o futuro. Simples como isso: acreditamos que tal como Maria foi capaz, talvez também nós, mesmo se entre hesitações, noites e limitações próprias o consigamos fazer. Acreditamos que a nossa vida é mais do que um passar dos dias, e que pode ser Deus quem nos salve, transfigure e nos dê uma vida capaz de ser tão bonita e capaz de nos fazer encontrar a paz interior. Sim, este Deus pode ser para nós!

*Este artigo foi publicado no jornal A Crença