Por Renato Moura

Muitas são as polémicas que constantemente medram, principalmente em política; uma das últimas é a controvérsia sobre o parentesco próximo entre membros do Governo português: marido e mulher, pai e filha.

Sabendo-se da já fraca confiança dos cidadãos na política, situações desta índole servem para agravar a censura, tanto mais que existe a tendência de condenar acerbamente, antes de aprofundar a análise. Na verdade, é bem diferente se os nomeados foram escolhidos com base em inequívocos critérios de competência, ou se na decisão há falta de ética, se ocorre o risco de perda de objectividade e imparcialidade, ou se a escolha visar facilitar actos de corrupção.

Claro que num regime republicano os cargos não se transmitem de pais para filhos, nem os poderes de Estado são repartidos pelos membros da família. É curta a simples argumentação de que a lei não impede, até tendo em conta a velha regra de que, principalmente em política, não basta ser sério, mas é também preciso parecer: quem não toma isso em conta prejudica a sua imagem, a da instituição e a do seu partido.

É muito mau quando se vê que um filho menos dotado ascendeu a um cargo político só por influência de seu pai, mas também não é justo que uma filha absolutamente competente para uma função não possa aceder a ela pela razão de seu pai exercer função idêntica ou ser tido por influente. Haverá que não fazer da excepção a regra, como há que não tomar a árvore pela floresta. Há parentes não dependentes.

Em tempo de campanha eleitoral tudo se agiganta, quando verdadeiramente o que mais importava era discutir o mérito de quem governou, ou demonstrar o efeito negativo das situações dúbias. Mas, seja em que tempo for, há que estar atentos e impedir que se formem castas familiares destinadas a concentrar o poder dentro de bolhas estanques, que favorecem a criação de teias impenetráveis à fiscalização política e legal.

É preocupante que, sob o manto da confiança política permitida na escolha e nomeação para outros cargos – e muito bem remunerados – se recrutem parentes, amigos e militantes partidários que não têm competência nem experiência para as respectivas funções, situações estas que têm a agravante de habitualmente passarem desapercebidas do escrutínio público.

Mais alarmante que tudo, é ver escolher para deputados, ou outros cargos de grande responsabilidade, gente sem emprego, sem perfil e sem maturidade, falhos de coragem para a independência, dependentes da partidarite ou de pessoas, terçando armas por causas que não honram!