Por Carmo Rodeia

Lembrei-me deste verbo depois de ontem ter passado por uma grande superfície comercial onde tive de ir obrigatoriamente para procurar um livro de última hora,  e de ter visto o acotovelamento frenético em que as pessoas estavam entrando e saindo de lojas, revirando e embarcando nas promoções do dia e do Natal. E o apelo até é mais aliciante este ano porque o que está na moda já não é leve dois pague um, quase como na publicidade do shampoo, mas sim leve três e pague dois. Soa sem dúvida melhor. E se forem perfumes ou produtos de beleza, género gel de banho, cremes e afins fica tudo a cheirar ao mesmo, mas andamos todos na moda. Afinal, quanto mais iguais formos mais normal será a sociedade, dirão alguns.

Na noite de Natal quando essas promoções chegarem aos destinatários, e estes desatarem a desembrulhar as prendas tão promissoras, não se admirem da mesma pessoa receber três prendas iguais ou de cheirar ao mesmo que a irmã e que a sobrinha.

Uns metros mais à frente, os écrans gigantes que habitualmente fazem parar meio mundo quando está a dar um jogo de futebol, davam as últimas noticias de Alepo, na Síria. Mais um comboio humanitário tinha permitido a saída de civis da cidade, ou melhor dos escombros que restam do que um dia foi a segunda maior e mais importante cidade Síria. Saem, sobretudo velhos, mulheres e crianças. Famílias desfeitas por dentro e por fora, sem esperança e sem presentes para desembrulharem na noite de Natal.

O frenesim consumista das lojas esbarrava com a indiferença das pessoas às notícias.

Pela primeira vez, o limiar de desalojados ultrapassou os 60 milhões em todo o mundo. O Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados, ACNUR revelou que 65,3 milhões de pessoas foram desalojadas no fim de 2015, em comparação com 59,5 milhões do ano anterior.

Os dados do relatório anual destacam que quase metade desse total veio da Síria, do Afeganistão e da Somália. Mas o conflito sírio ainda é a principal causa de deslocamentos e de sofrimento no mundo, ao produzir 4,9 milhões refugiados e 6,6 milhões de desalojados. Os números correspondem a cerca de metade da população do país antes do conflito. Á Europa chegaram este ano 350 mil pessoas. Certamente, também, não terão presentes para desembrulhar na noite de Natal. Nem Natal para assinalar.

O dicionário Priberam on line, de língua portuguesa, diz que “Desembrulhar” é um verbo transitivo que significa tirar do embrulho, desfazer o que embrulha, mostrar. E diz mais: em sentido figurado “desembrulhar” significa esclarecer, aclarar, desenredar.

Fazemos rigorosamente o oposto: desembrulhamos para esquecermos o que nos falta e que procuramos cobardemente compensar com coisas. Damos porque não sentimos falta mas não damos o que nos faz falta. A nós e aos outros.

Talvez esse seja o verdadeiro desafio do Natal, a começar já neste.

A verdadeira caridade cristã não dá o que sobra; partilha o que tem.

Vem-me à memória um poema do Pe Tolentino de Mendonça: “O Natal não é ornamento: é fermento/ Dentro de nós recria, amplia, expande/ O Natal não se confunde com o tráfico sonolento dos símbolos/ nem se deixa aprisionar ao consumismo sonoro de ocasião/ A simplicidade que nos propõe/ não é o simplismo ágil das frases-feitas/Os gestos que melhor o desenham/ não são os da coreografia previsível das convenções”.

Neste Natal não quero desembrulhar prendas…apenas a indiferença.

Um santo e feliz Natal.