Por Carmo Rodeia

O mundo está cada vez mais desigual e particularmente mal preparado para a realidade após a pandemia de covid-19.

O World Economic Fórum(WEF) acaba de publicar a 17ª edição do The Global Risks Report 2022. O relatório apresenta e articula os fatores que contribuíram para sairmos desta crise sanitária mais afastados ainda, afirma o Expresso desta quarta-feira, dia 12 de janeiro. Nos 52 países mais pobres, que albergam 20% dos mais pobres do planeta, apenas 6% da população foi vacinada em comparação com 69,9% nas nações de rendimento alto, diz o relatório do WEF. De acordo com os dados serão mais de 51 milhões de pessoas a viver em extrema pobreza em comparação com a tendência pré-pandemia. A mudança climática é o maior risco global. A falta de ação sobre as mudanças climáticas pode reduzir o Produto Interno Bruto (PIB) global em um sexto e os compromissos assumidos na COP26 ainda não são suficientes para atingir a meta de 1,5 C.

Mas, se os principais riscos de longo prazo estão relacionados com o clima, as principais preocupações globais de curto prazo incluem divisões sociais, crises de subsistência e deterioração da saúde mental. Além disso, a maioria dos especialistas consultados antecipa uma recuperação económica global volátil e desigual nos próximos três anos. Se juntarmos a estes dados os que já vinham de trás- um em cada nove seres humanos não tem o suficiente para comer; mais de mil milhões de pessoas vive com menos de 1,25 dólares por dia- percebemos que a desigualdade na distribuição dos bens, sejam os elementares básicos seja o acesso à vacina, por exemplo, é avassaladora e tende a ser ainda mais cavada com a crise pandémica.

Neste momento, a União Europeia tem mais de 83% da sua população vacinada; o continente africano apenas vacinou 7% da sua população, tornando-se assim num laboratório vivo para as mutações do coronavírus que causa a doença covid-19. Há países onde praticamente ninguém viu uma agulha , como o Burundi (0,0025%), a República Democrática do Congo (0,06%) e o Chade (0,42%);

Esta segunda-feira, no encontro com os diplomatas acreditados na Santa Sé, o Papa Francisco pediu à comunidade internacional para “continuar os esforços” para vacinar a população.

“Todos temos a responsabilidade de cuidar de nós próprios e da nossa saúde, o que se traduz também no respeito pela saúde de quem vive ao nosso lado. O cuidado da saúde constitui uma obrigação moral.”

Já a 17 de dezembro, no final de um encontro com o Embaixador da Guiné Bissau, o Sumo Pontifice afirmava: “É importante que a comunidade internacional intensifique os esforços de cooperação para que todas as pessoas tenham acesso rápido às vacinas. Não é uma questão de conveniência ou cortesia, mas de justiça”. E prosseguia:

“Esta é uma verdade que deveria nos impulsionar a enfrentar não somente a atual crise sanitária, mas todos os problemas que afligem a humanidade e a nossa casa comum – pobreza, migração, terrorismo, mudanças climáticas, para citar alguns – e isto fazê-lo de maneira solidária e não isolada”, indicou.

Mas quando os números indicam que, apesar da sua generalização e de haver países desenvolvidos onde a quarta dose da vacina já está a ser ministrada em grupos de risco, quando ainda existe uma larga maioria de seres humanos que não recebeu uma dose sequer, será difícil acreditar que a pandemia vai ser vencida e que as desigualdades vão ser combatidas.

Depois desta pandemia, não tenho dúvidas de que os ricos são cada vez mais ricos e os pobres cada vez mais pobres. E, já agora, mais doentes. É óbvio que há riqueza suficiente no mundo para as necessidades do homem; o que não há é recursos suficientes para a sua ambição e nós, inundados pelas imagens que nos vão chegando, perdemos a capacidade de ver e de discernir.