“É o amor que deve triunfar, não a guerra! É isso que nos ensina o coração de Maria” – Leão XIV

O Papa apelou hoje no Santuário da Muxima a um compromisso concreto com os mais pobres e à construção de um mundo sem guerras, destacando a devoção angolana à “Mãe do coração”.
“Rezar o Terço compromete-nos a amar cada pessoa com coração maternal, de forma concreta e generosa, e a dedicar-nos ao bem uns dos outros, especialmente dos mais pobres”, afirmou Leão XIV, na intervenção que proferiu no final da recitação do terço, esta tarde.
O pontífice chegou de helicóptero ao histórico santuário mariano, a cerca de 110 quilómetros de Luanda, onde presidiu ao momento de oração, perante milhares de pessoas.
“É o amor que deve triunfar, não a guerra! É isso que nos ensina o coração de Maria, o coração da Mãe de todos”, apelou.
Leão XIV pediu o compromisso de todos para que “a ninguém falte o amor e, com ele, o necessário para viver com dignidade e ser feliz”.
“Que quem tem fome tenha com que se alimentar, que todos os doentes possam receber os cuidados necessários; que às crianças seja garantida uma adequada instrução; que os idosos vivam serenamente os anos da sua maturidade”, pediu.
Depois de saudar a multidão, a bordo de um pequeno veículo motorizado, o Papa elogiou a “Igreja viva e jovem de Angola”.
A intervenção apontou para o projeto de construção do novo Santuário da Muxima como um símbolo da missão confiada às novas gerações.
“Também a vós, efetivamente, a Mãe do Céu confia um grande projeto: o de construir um mundo melhor, acolhedor, onde não haja mais guerras, nem injustiças, nem miséria, nem desonestidade, e onde os princípios do Evangelho inspirem e moldem cada vez mais os corações, as estruturas e os programas, para o bem de todos”, sustentou.
O bispo de Viana, D. Emílio Sumbelelo, recordou no seu acolhimento que a futura Basílica cumpre uma promessa feita pelo Estado angolano aquando da visita de São João Paulo II, em 1992.
“A Muxima é o que mais reúne católicos. É uma devoção que remonta ao ano de 1833. Cristãos de todo o lado percorriam quilómetros e quilómetros durante cinco dias para fazer chegar as suas preces à Mamã Muxima”, indicou o prelado.
O Santuário da Muxima, palavra que significa “coração” na língua quimbundo, foi fundado no século XVII; está localizado na província de Luanda (município da Quiçama), junto ao rio Kwanza.
Ao chegar ao local Leão XIV ouviu uma apresentação do projeto de requalificação do espaço, um dos locais mais importantes para comunidade católica em Angola.
“Mama Muxima acolhe todos, escuta todos e reza por todos”, referiu à multidão.
Antes do terço, o Papa prestou homenagem à imagem da Imaculada Conceição com uma oferenda de flores e um momento de oração silenciosa no interior do templo.
À chegada ao país o Papa tinha sublinhado a importância da superação definitiva das divisões e a cura da “chaga da corrupção” em Angola, através de uma nova cultura de justiça e partilha.
“Podemos e queremos construir um país onde as antigas divisões sejam superadas para sempre, onde o ódio e a violência desapareçam, onde a chaga da corrupção seja curada por uma nova cultura de justiça e partilha”, disse Leão XIV na homilia da Missa a que presidiu na esplanada do Kilamba, arredores da capital angolana.
O pontífice foi acolhido por uma multidão em festa, que as autoridades locais, percorrendo o espaço em veículo aberto.
A homilia, no terceiro domingo do tempo da Páscoa, estabeleceu um paralelo entre o desânimo dos discípulos de Emaús e a história recente do de Angola, “país belíssimo e ferido, que tem fome e sede de esperança, de paz e de fraternidade”.
“A conversa dos dois discípulos, que recordam com desânimo o que aconteceu ao seu Mestre, traz à memória a dor que marcou o vosso país: uma longa guerra civil com o seu rasto de inimizades e divisões, de recursos desperdiçados e de pobreza”, afirmou Leão XIV.
Leão XIV dirigiu-se especificamente aos jovens angolanos, desafiando-os a serem protagonistas de uma transformação social baseada na compaixão.
“Jesus Ressuscitado, que percorre o caminho convosco e por vós se parte como pão, encoraja-vos a ser testemunhas da sua ressurreição e protagonistas de uma nova humanidade e de uma nova sociedade”, declarou.
A intervenção deixou um aviso sobre a necessidade de separar a fé católica de elementos específicos da religiosidade local.
“É necessário estar sempre atentos às formas de religiosidade tradicional, que certamente pertencem às raízes da vossa cultura, mas que, ao mesmo tempo, correm o risco de confundir e misturar elementos mágicos e supersticiosos que não ajudam no caminho espiritual”, precisou o pontífice.
Muitas pessoas pernoitaram no local, para poderem aceder aos locais mais próximos do altar, sendo acompanhadas pelo dispositivo de segurança implementado pelas autoridades angolanas.
A Igreja Católica no país lusófono organizou a presença de delegações de todas as dioceses e das várias comunidades religiosas presentes em Angola, que o Papa desafiou a “construir espaços de fraternidade e paz”, com “gestos de compaixão e solidariedade”.
“A história do vosso país, as consequências ainda difíceis que suportais, os problemas sociais e económicos e as diversas formas de pobreza exigem a presença de uma Igreja que saiba estar próxima no caminho e saiba ouvir o clamor dos seus filhos”, disse-lhes o Papa.
No final da Missa, o arcebispo de Luanda agradeceu a presença do Papa, classificando o dia como um momento de “encanto jubiloso”.
“Obrigado por nos recordardes que devemos ser um povo unido no bem, na verdade e na justiça; povo de irmãos de mãos dadas comprometido com a felicidade, e o bem-estar do outro”, disse D. Filomeno Vieira Dias.
A agenda apostólica prossegue esta segunda-feira em Saurimo, no leste do país, onde o Papa visitará uma casa de acolhimento de idosos e presidirá à Eucaristia.
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