Por Carmo Rodeia

As Cantinas da Universidade de Coimbra registam oito toneladas de desperdício alimentar por mês. Os seus responsáveis querem agora reduzir os desperdícios e lançaram uma campanha junto da comunidade académica em gestos tão simples quanto a quantidade de comida servida ser só a que se vai consumir ou a reutilização de alimentos. Num slogan seria qualquer coisa como “Não tenha mais olhos que barriga”, como dizemos às crianças que querem tudo e depois deixam metade no prato.

Esta campanha está inserida num plano da Secretaria de Estado da Alimentação e da Investigação Agrolimentar para a redução do desperdício alimentar que, em Portugal, representa um milhão de toneladas por ano – 17% da produção anual de alimentos.

Tropecei nesta notícia quando me preparava para fazer o editorial. E, veio-me logo à cabeça um texto que li há tempos do Pe Tolentino Mendonça intitulado “Entre a cozinha e a mesa”, no qual ele dizia “que o comer e o beber são categorias centrais para as religiões” e, mais importante ainda, é na comida “que se colhem alguns dos códigos mais intrínsecos de uma cultura”.

Olhando para o cristianismo que relativizou sempre os interditos de tipo alimentar, ao contrário por exemplo do que acontece com o Judaísmo, podemos dizer que Jesus também aqui revolucionou o mundo: Comeu com pecadores, repartiu o pão e o vinho sem quaisquer tipo de restrições. O muito ou pouco que se tinha, naquele tempo, era para ser repartido.

Infelizmente em Coimbra, o desperdício ainda não foi evitado. Mas sê-lo-á num futuro próximo. Como foram as sobras dos restaurantes no ano passado, quando num projeto pioneiro em que participaram várias instituições foi possível canaliza-las para 4500 instituições de solidariedade social que davam resposta imediata no terreno às carências alimentares das famílias.

Em 2013, havia pelo menos 500 mil pessoas a passar fome diariamente em Portugal. Desde 2008 que existem mais de 35 mil crianças a precisar de ajuda para comer. Se somarmos à falta de comida e à falta de dinheiro para comer, a falta de dinheiro para medicamentos, renda de casa, água ou uma simples botija de gás, tudo fica irremediavelmente mais incompreensível…

Os números envergonham-nos a todos. Tal como nos envergonha a realidade dos nossos dias. Em Portugal e no mundo.

Uma em cada nove pessoas passa fome. Ao todo são muito mais de 800 milhões de pessoas que passam fome ou sofrem de desnutrição permanente.

Pelos vistos, vivemos persistentemente numa espécie de “paradoxo da abundância”, como lhe chamava São João Paulo II. Há comida suficiente para todos, mas nem todos podem comer. Há desperdício, consumo excessivo e a utilização de alimentos para outros fins. Este é o resultado da cultura do nosso tempo. Parece que, de repente, há pessoas a quem os alimentos são interditos. Não este ou aquele, como ditam algumas religiões, mas todos sem exceção.

A decisão dos serviços que gerem as cantinas da Universidade de Coimbra é importante. Como foi importante a campanha do encaminhamento das sobras dos restaurantes. Mas as pessoas não precisam só de esmolas. Precisam sobretudo de dignidade.

Deus perdoa sempre, mas a fome continua a matar, porque a natureza não perdoa.