Pelo Pe. José Júlio Rocha

Não foi há muito tempo que passei por uma cidade da margem do Tejo. Daquelas onde ainda se vislumbram vestígios dos famosos murais enormes do MRPP. Daquelas cidades operárias, ostensivamente de esquerda, com restos de indústria e desencanto.

Deparei-me, em pouco espaço, com quatro edifícios adaptados a igrejas. Não das nossas igrejas católicas, mas seitas ou igrejas evangélicas. Espaços amplos, grandes, com cartazes enormes a anunciar felicidade e salvação. Numa terra “de missão”, não deixei de ficar admirado com tanta procura de espiritualidade e de divino. Aquelas terras “vermelhas”, que exigiam a salvação aqui e agora, salvação que consistia na resolução dos problemas sociais das classes trabalhadoras, que ainda fazem greves estrondosas, vêem-se agora polvilhadas desses baluartes da fuga ao mundo, da procura de salvação e de paz em liturgias espiritualistas, a quem pagam a décima parte do que ganham, para poderem ter um consolo que não encontram no dia-a-dia.

Este princípio de milénio traz-nos um sabor de mudança de paradigma civilizacional. Não podemos deixar de ver nestes templos exóticos um profundo desconforto como o mundo tal como ele está, ânsia de uma nova era de espiritualidade espontânea e fácil, que caminha passo a passo – e em claro contraste – com um ateísmo crescente, feroz ou apático que seja. É uma época de extremos, a nossa, tanto a nível social como político, económico ou religioso.

O problema é que esses fenómenos religiosos emergentes parece não trazerem nada de bom, senão uma espécie de consolo passageiro para o desencanto psicológico e social da nossa época. As pessoas têm medo. Têm medo de ter medo. E refugiam-se na segurança de pequenos grupos homogéneos, mais ou menos tribais, que aparentam dissolver o medo em promessas de bem-estar material e espiritual. Ali canta-se, reza-se, assiste-se a milagres estranhos, gesticula-se para deixar o medo do lado de fora da porta do templo. É o retrato de um vazio espiritual, de um abandono, de uma orfandade. Mas talvez seja também a tradução moderna da máxima mais conhecida de Santo Agostinho: “Criaste-nos para vós, Senhor, e o nosso coração não descansa enquanto não repousar em vós”.

Os novos movimentos religiosos, com tanto de inverosímil como de folclórico, parecem indicar que o homem é, na sua essência, um ser religioso. Tem, no fundo de si mesmo, uma Lei, que ele não criou, que o leva a procurar a fonte de onde veio. E, no entanto, os caminhos desses novos fenómenos religiosos são tão díspares e contraditórios que nos levam a perguntar onde – nós, Igreja – falhámos. Fomos demasiado institucionais e pouco carismáticos? A nossa História tem momentos pouco exemplares? O nosso exemplo de verdadeiro seguimento de Cristo e da Sua mensagem não foi o melhor? Abandonámos certos setores que considerávamos “inimigos”? A ideia de “cristandade”, cristianismo de massas, dificultou a proximidade, o contato, o acolhimento?

Continuam a crescer novas formas de espiritualidade, continua a crescer o número de pessoas que aderem a essas espiritualidades, que não se revêem na doutrina, na pastoral ou na moral da Igreja. Não é o crescimento dessas espiritualidades que deve preocupar a Igreja. O que nos deve preocupar é o facto de não estarmos a conseguir compreender esse moderno desejo de Deus e dar-lhe uma dimensão católica.

Temos resposta para esse movimento? Enquanto esses templos se vão enchendo e as igrejas esvaziando, a pergunta continuará a incomodar-nos as consciências.