Por Carmo Rodeia

Santo Agostinho sabia o que era o tempo. Mas, quando lhe perguntavam o que era, ficava sem resposta. Como se não soubesse. De facto ninguém tem a chave do tempo. Por mais rigorosos que sejam os nossos cálculos, por mais planos que façamos, quase nunca o tempo coincide realmente com a vida. Para não falar das vezes em que tropeçamos na fronteira do tempo. Falamos do passado como se fosse hoje e equacionamos um futuro, a partir desse hoje. E assim cavalgamos o tempo.

Costumo dizer que a nossa sociedade vive o síndroma do momento seguinte. Sempre em função do que há de vir. E, quando nos apercebemos que afinal há um hoje que tem de ser vivido, lidamos mal com ele, porque achamos que é um tempo de transição, entre um passado que não raras vezes recordamos com saudosismo, e um futuro que desconhecemos mas para o qual fazemos meticulosos planos.

Vivemos, por isso, dias sem história. Porque não há tempo para a fazer. Não há tempo para pensar, para refletir, para construir; apenas para dizer e  desconstruir, que é sempre mais fácil.

Vivemos dias marcados mais pelos “barulhos mundanos” e pelas “paixões” e menos pela disponibilidade para “acolher a graça de Deus”. E, fazemo-lo de uma forma embaciada e cruel.

Ainda no inicio desta semana, o Papa Francisco alertava-nos para essa necessidade: “acolher a graça de Deus”, o que pressupunha “estar atentos para entender o tempo de Deus, quando Ele passa pelo nosso coração”.

“Em cada tempo o Senhor nos dá a graça, o dom que é gratuito”, acrescentou o Papa, e por isso, todos os cristãos devem ter “O coração protegido pela humildade, pela mansidão, nunca pelas lutas e guerras”.

Se olharmos à nossa volta e virmos o que nos rodeia, facilmente percebemos que este não é o reino de Deus: guerras, perseguições, desrespeito pelos mais elementares direitos humanos que é como quem diz direito à dignidade no trabalho, na saúde, na educação, na família ou na alimentação.

Durante o seu ministério público, Jesus anunciou a sua intenção de construir a igreja. Com certeza, ele não pretendia construir uma estrutura tipo catedral mas congregar à sua volta os pecadores por meio do evangelho, para experimentar a salvação pela sua graça.

Esta é a única Igreja de Cristo, que no Credo confessamos ser una, santa, católica e apostólica, que Jesus entregou a Pedro “para que a apascentasse”, difundindo-a e governando-a “sempre com verdade”. E, nela não cabem certos “ídolos”, como a ambição, o desejo do sucesso, de sermos o centro da vida ou a tentação de dominar os outros.

Vivemos dias sem história. Quando regressarão os momentos evangélicos, aqueles em que nos reconhecemos e nos abraçamos como irmãos, filhos de Deus?

O tempo o dirá e a chave que abre e fecha “a porta” do tempo só tem um dono. Qualquer que seja a geometria da nossa vontade.