Por Carmo Rodeia

Está quase a fazer um mês sobre o Earth Overshoot day 2019, isto é, o momento em que a terra passou a viver em sobrecarga, pois esgotámos os recursos naturais que o planeta é capaz de regenerar num ano e começámos a hipotecar os do ano que vem. O episódio, ocorrido no dia 29 de julho não teve grande visibilidade na imprensa ou pelo menos a que mereceria.

Daqui a dias vamos ter o sínodo da Amazónia, que é uma espécie de prolongamento da Laudato Si, a primeira grande encíclica ambiental em muitos anos da história da Igreja. Nela o Papa, que veio do outro lado do mundo onde as questões ambientais são determinantes para o desenvolvimento das populações, com graves e reiterados atentados em nome de interesses económicos privados e em detrimento do bem comum, desde logo a nossa própria sobrevivência e a dos povos locais, recorda-nos que o futuro imediato deste planeta depende de nós. Depende da forma como o administramos, porque é isso que somos: administradores e não donos.

Na essência, nesse documento, salienta a ideia de uma dívida ecológica – entre os hemisférios norte e sul – e a necessidade de uma ecologia integral, propondo gestos concretos, individuais, como a reciclagem e poupança de água, mas vai muito mais além da responsabilidade pessoal, recorrendo sempre aos últimos estudos científicos sobre o clima e chamando a atenção para os lideres mundiais.

Por isso, não se pode estranhar que a encíclica Laudato Sí tenha sido encarada como uma declaração de guerra aos interesses instalados em volta da exploração de recursos naturais, assentes num modelo de vida e de consumo que leva ao abismo. É bom recordar que foi depois deste texto – posterior à exortação  A Alegria do Evangelho (2013), onde o Papa diz que “esta economia mata” – e da intransigente defesa dos migrantes, com duras críticas a Donald Trump, que o Papa foi transformado no alvo preferencial de uma agressiva campanha nos Estados Unidos, acusado de ser um perigoso extremista e comunista.

“Os recursos da terra estão a ser depredados também por causa de formas imediatistas de entender a economia e a atividade comercial e produtiva”, denuncia o chefe da Igreja católica, “a perda de florestas e bosques implica simultaneamente a perda de espécies que poderiam constituir, no futuro, recursos extremamente importantes não só para a alimentação mas também para a cura de doenças e vários serviços” (32, LS)

Se a “degradação moral” e a falta de ética destroem “o fundamento da vida social”, colocando “uns contra os outros na defesa dos próprios interesses”, despertando “novas formas de violência e crueldade” que impedem o desenvolvimento de “uma verdadeira cultura do cuidado do meio ambiente“ (229, LS), o Papa propõe o conceito de “amor civil e político”, em alternativa. Outra forma de dizer o princípio da corresponsabilidade, enquadrado na Doutrina Social da Igreja: “O amor, cheio de pequenos gestos de cuidado mútuo, é também civil e político, manifestando-se em todas as acções que procuram construir um mundo melhor” (231, LS).

“Era a encíclica que faltava para a Igreja Católica ocupar o seu espaço-tempo na contemporaneidade de forma mais interveniente e efetiva”, disse na altura o filósofo e ambientalista Viriato Soromenho Marques, sublinhando a dimensão humana como chave de leitura para este novo `tratado´, situando o documento do Papa numa tradição da filosofia e da teologia ocidentais em que, muito embora a Humanidade comungue dessa característica de fragilidade essencial das outras criaturas, tem uma responsabilidade específica porque a ela cabe cuidar da obra da Criação.

A nossa diferença não nos torna, contudo, mais poderosos, mas mais responsáveis. Há um privilégio da administração da Terra, deste grande condomínio que é o nosso planeta, que cabe aos humanos.

Restarão poucas dúvidas sobre o papel crucial do Papa no debate sobre as questões ambientais. Até porque conseguiu transformar um documento do magistério da Igreja num dos mais ruidosos gritos políticos de um Papa na história recente, na medida em que é um programa para toda uma nova era, apontando para “um novo estilo de vida” sem o qual nunca será possível a justiça e a paz.

No Sínodo da Amazónia vai-se falar de outras coisas, importantes também, mas esta terá de ser a prioritária.