Por Carmo Rodeia

Barcelona é aqui ao lado. Paredes meias com Portugal. Quinta-feira, dia 17 de agosto, pela oitava vez este ano, o terrorismo `low cost´ voltou a impor-se deixando um rasto de morte: 13 vítimas mortais; vários feridos de 26 nacionalidades que passeavam tranquilamente nas Ramblas, uma das zonas mais `in´ da cidade catalã.

O massacre de Barcelona esteve (e está!) nas capas dos jornais de todo o mundo. Fica-nos na memória a pouco habitual manchete de um jornal desportivo, La Marca, no dia seguinte ao atentado, que ao lado de um laço negro titulava: “Hoje não podemos falar de desporto”. O El Mundo, por seu lado, pedia “unidade e firmeza na luta contra o jihadismo em todo o mundo”.

O atentado de Barcelona é mais um episódio condenável de uma longa e tortuosa história.

Os terroristas voltaram a escolher como alvo lugares da vida quotidiana; eles seguiram um guião triste que já deixou cicatrizes em teatros, restaurantes, igrejas, sinagogas, universidades, estádios, museus e escolas em todo o mundo.

Em Espanha, a Catalunha é a região com maior incidência de actividade jihadista desde há bastantes anos. De resto, como refere Ignacio Cembrero no livro La España de Alá, 50 das 98 mesquitas e oratórios salafistas sinalizados pelo Ministério do Interior estão na Catalunha.

Por lá passaram organizações terroristas de diferentes países, da Argélia ao Paquistão. Viu-se o grau de conhecimento das autoridades na prontidão da resposta e no desmantelamento da presumível rede.

O problema é grave, mas não é novo. É preciso resistir com o mesmo empenho aos terroristas e aos discursos catastróficos sobre o terrorismo.

Recuso-me a aceitar a ideia de que a instituição de um califado no coração da Europa seja só uma questão de anos, talvez em 2022, como no último livro que li de Michel Houellebecq.

O terrorismo sabe prolongar conflitos durante anos, através de acções espaçadas e cirúrgicas, de baixa intensidade e que envolvem muito poucos meios,  como de resto estamos a ver, mas a única conquista política que alcançará é algum medo, alguns recrutas e nada mais.

O terrorismo não funciona, não pode funcionar. E não falo simbolicamente. Se excetuarmos o terrorismo que foi (algum, ainda é) colocado ao serviço de movimentos de luta pela independência de um país, não há memória de um grupo terrorista que tenha alcançado os objectivos políticos a que se propôs.

É claro que faz mossa no nosso modo de vida, exige maior segurança nas cidades e uma revisão urgente da cultura de (não) integração das comunidades islâmicas (todos os atentados têm sido perpetrados por extremistas radicais islâmicos); mas é igualmente claro que as nossas sociedades democráticas, continuarão livres, solidárias, pujantes e os melhores lugares do mundo para se viver.

Os ataques certamente que se irão repetir. Mas nenhum grupo terrorista é capaz, só por si, de mudar radicalmente o nosso modo de vida. Só se nós deixarmos. E, talvez fosse bom não pensarmos que nunca nos acontecerá nada de semelhante. A nós portugueses. Aliás, talvez fosse bom estarmos preparados para essa eventualidade e, se possível, a conseguíssemos evitar. Não com frases ocas proferidas tantas vezes pelos nossos políticos e que podem não corresponder ao nosso grau de preparação para enfrentar um evento dessa gravidade. Como se viu com os incêndios. Como se viu com a árvore na Madeira. Como se tem visto em inúmeras situações.

Não precisamos de entrar em pânico e muito menos queremos viver num Estado securitário mas também não queremos viver num Estado que apenas reage ainda que com prontas manifestações de afeto.