O atual pároco de São José, paróquia que acolheu a celebração da palavra de João Paulo II destaca o sentido de paz que o papa trouxe ao mundo em geral e aos Açores em particular.

João Paulo II foi um Papa de elevada singularidade histórica, que estabeleceu um pacto de hospitalidade com o Mundo. Todo de Deus, Totus tuus!

 

 

O seu pontificado identifica uma verdadeira epifania, pela sonoridade da palavra reconciliação que habitou as narrativas do seu pensamento teológico e pastoral. Diria que este homem de Deus deixou marcas indeléveis na Igreja e no Mundo, vislumbrando o segredo do Redemptor Hominis.

 

 

Foi o primeiro Papa que teve a coragem e o assombro de se aproximar da sarça-ardente da sinagoga em Roma e pediu perdão pelos pecados da Igreja. Memória e Reconciliação.

 

 

Este polaco, que beijava a terra como quem beija as mãos de uma Mãe, era um homem de profunda fé, que seguiu Jesus Cristo de perto, abraçando a sua cruz até à consumação final.

 

 

Steinbeck, diz-nos que as palavras nada significam quando não exprimem sentimentos. Pois é, é com o coração agradecido que recordo a tarde de sol de 11 de Maio de 1991. Tive a sorte e a graça de me encontrar com este Papa, entre cânticos de júbilo de uma multidão em festa, junto ao forte de São Brás, em Ponta Delgada. Instante do eterno.

 

 

O seu olhar era deveras fascinante. Ninguém podia ficar indiferente. Nesse olhar profundo e convicto não se encontrava qualquer cicatriz de divisão e de indiferença. Era um olhar luminoso, irradiante, único, próprio de um Santo.

 

 

Guardo em viva memória a sua chegada ao Campo de São Francisco, no Papa-móbil, acompanhado de D. Aurélio, Bispo dos Açores, pessoa austera que nesse dia não escondeu uma extraordinária felicidade, bem escrita no rosto. Todos sentíamos que o Papa estava em sua casa, na sua Igreja, e espalhava a alegria e a inocência de um pastor universal. O Papa rasgou o protocolo. Quis tocar a multidão, porque se sentia seguro no meio do seu povo.

 

 

Recordo com emoção a sonoridade das suas palavras, dirigidas em particular aos jovens, junto da Imagem do Senhor Santo Cristo dos Milagres: “A juventude é a época do armazenamento para a vida, tempo de formação para as grandes responsabilidades do amanhã”.

 

 

O seu discurso trazia o silêncio e a profundidade da paisagem de Deus. A sua dicção convidava a uma peregrinação ao interior do coração. Citou S. Lucas: “Maria escolheu a melhor parte, que não lhe será tirada”.