
Miguel Monjardino, especialista em assuntos internacionais, afirmou que o mundo vive um momento de rutura sem memória histórica recente, no qual a afirmação do “poder imperial” dos Estados Unidos está a atropelar o primado do direito internacional.
“O que Donald Trump nos vem relembrar é que há uma outra maneira de nós olharmos para tudo isto, que é o exercício do poder. E as questões legais e de legitimidade internacional, do ponto de vista dele, não devem constranger a afirmação do poder dos Estados Unidos como potência imperial”, explicou o professor de Geopolítica e Geoestratégia da Universidade Católica Portuguesa.
Em entrevista conjunta à Renascença e Agência Ecclesia, o analista analisou a intervenção militar norte-americana na Venezuela para capturar Nicolás Maduro, distinguindo-a de uma “mudança de regime”.
“Isto é o fantasma do Iraque e do Afeganistão. É uma administração que quer proteger os seus interesses, mas não quer correr o risco de que morram militares em combate. Entenderam que a melhor maneira era alterar a chefia do Estado através da coerção energética e militar, sem empenhamento terrestre”, referiu.
Miguel Monjardino sublinhou que a pressão de Washington para adquirir a Gronelândia representa um “choque estratégico” para a Europa, especialmente para a “Europa Marítima Atlântica” e para Portugal.
“No início de 2026, a Europa percebe que a principal ameaça que poderíamos ter não é só a Rússia, é esta administração norte-americana. Ver um Estado-membro da NATO a coagir outro Estado-membro [Dinamarca] é algo completamente novo”, alertou, acrescentando que, se a anexação da Gronelândia se concretizar contra a vontade local, “a NATO, como a conhecemos, acabou”.
Para o especialista, o objetivo de Donald Trump é desenhar um “perímetro fortificado” que vai da Colômbia ao Ártico, garantindo recursos e rotas marítimas para o próximo século. “Donald Trump gostaria de ter um lugar na história como um presidente que expandiu o território norte-americano”, observou.
Questionado sobre o papel de atores de paz, como o Papa Leão XIV e as organizações católicas que têm apelado ao respeito pela soberania, Monjardino reconheceu a importância da doutrina da Igreja, mas notou o desequilíbrio do sistema.
“A Igreja e os Papas acentuam o primado do direito, o que está de acordo com a doutrina. O problema é que a potência hegemónica, que nos últimos 80 anos estabilizou o sistema, agora desestabiliza-o. Esta é uma situação inédita para nós”, afirmou.
Para o analista, o papel dos atores da paz será “continuar a conversar, a todos os níveis, e tentar criar novas coligações que ajudem a estabilizar o sistema internacional” num tempo de “grande volatilidade”.
Miguel Monjardino lamentou que a campanha para as eleições presidenciais em Portugal esteja “fixada em questões de política interna”, ignorando a mudança tectónica na estrutura do sistema onde o país se insere.
“Somos um país arquipelágico, no hemisfério ocidental, zona onde os EUA querem ser a potência hegemónica absoluta. Teremos de fazer um processo de adaptação o mais rapidamente possível. A realidade supera a ficção e nós teremos de ter poder a sério para negociar”, concluiu.
(Com Ecclesia e RR)