“Tem que ser. Não podemos olhar para trás; o caminho é para a frente e temos de ser capazes de tentar fechar estas feridas”- Paula Quaresma, coordenadora do Conselho Pastoral Paroquial

A paróquia da Ribeirinha, no Faial, acolheu esta tarde a missa de ação de graças pela abertura do novo ano pastoral da Diocese de Angra, numa celebração marcada pela esperança na construção de uma nova igreja paroquial, quase três décadas depois de o templo ter sido destruído pelo sismo de 9 julho de 1998.
A comunidade, que continua a ser a única dos Açores sem igreja paroquial desde o sismo, recebeu a presença do bispo como um sinal de ânimo e renovou a confiança na concretização de um projeto há muito aguardado e agora redimensionado.
“É uma emoção muito grande sermos a anfitriã desta festa”, afirmou Paula Quaresma, coordenadora do Conselho Pastoral e presidente da Junta de Freguesia da Ribeirinha, que considera que a presença do bispo e a realização deste momento na freguesia constituem um sinal de esperança para uma comunidade que, apesar da ausência de um templo, manteve viva a sua vida religiosa e comunitária.
“A igreja precisa de pilares e o primeiro pilar são as pessoas”, afirmou.
A responsável não esconde a expectativa em relação à construção de uma nova igreja.
“Vai ser desta. Vou rezar. Vamos ter a nossa igreja”, afirmou fazendo suas as palavras de uma idosa de 87 anos que ontem visitou e que com ela partilhou a alegria de “ser desta”, defendendo que é tempo de olhar para o futuro.
“Tem que ser. Não podemos olhar para trás; o caminho é para a frente e temos de ser capazes de tentar fechar estas feridas”, acrescentou.
A ausência do templo é particularmente sentida numa comunidade onde, ao longo de quase três décadas, várias gerações cresceram sem a igreja paroquial que existia antes do sismo. Paula Quaresma lamenta que muitas das pessoas que viveram a Igreja ao longo desse período tenham entretanto morrido, mas acredita que a construção de um novo espaço poderá reforçar ainda mais a participação da população.
“Quando tivermos a nossa igreja, a envolvência ainda será maior e mais comprometida”, afirmou.
Na homilia, o bispo de Angra enquadrou a realidade da Ribeirinha numa reflexão mais ampla sobre o significado de ser Igreja. A ausência de um templo não significa, para a comunidade, ausência de Igreja, porque “a Igreja não são as pedras do templo. São os batizados, somos nós, as pedras vivas desta comunidade”.
D. Armando Esteves Domingues lembrou que, antes de existirem grandes templos, os cristãos organizavam-se em torno da mensagem de Jesus e da vida comunitária. Por isso, apesar da necessidade e da importância de reconstruir a igreja da Ribeirinha, a prioridade continua a ser a construção de uma comunidade viva.
“Se houver vida comunitária e vida de família, vale a pena construir um templo”, afirmou, numa celebração que procurou precisamente valorizar a comunidade que resistiu e manteve a sua fé durante os anos em que esteve privada da sua igreja.
Ser Igreja, sublinhou ainda o bispo diocesano, não se limita ao espaço físico de um templo.
“Seja no templo ou na praça, na família ou no local de trabalho, somos chamados a ser Igreja.”
A concelebração eucarística, que contou com a presença do clero da ilha do Faial acontece no Dia Mundial do Migrante e do Refugiado, colocando no centro da reflexão a necessidade de olhar para quem vive nas diferentes “margens” da sociedade.
O bispo de Angra recordou os milhões de crianças e adolescentes obrigados a abandonar as suas casas devido à violência, aos conflitos ou às catástrofes naturais, deixando um apelo à Diocese de Angra para que nenhuma destas realidades seja encarada como um problema distante.
“Não são homens e mulheres de segunda. São nossos irmãos e contamos com todos”, afirmou, pedindo às comunidades e às estruturas diocesanas uma atenção particular às pessoas e grupos que vivem situações de maior vulnerabilidade.
Partindo do episódio evangélico do encontro de Jesus com Mateus, o bispo apontou um caminho para a ação pastoral: sair ao encontro de quem está afastado, em vez de esperar que seja essa pessoa a aproximar-se da Igreja.
“Não podemos ficar à espera de que quem está na outra margem venha até nós. O primeiro desafio pastoral é ver quem está na margem e vencer a indiferença”, afirmou.
A “outra margem”, explicou, não corresponde apenas às pessoas que não frequentam a igreja. Pode estar dentro das próprias comunidades, em pessoas cujo coração se afastou, em jovens que não encontram espaço para a sua voz, em pessoas sós ou cansadas de serem julgadas, ou até em cristãos que cumprem as tradições mas já não encontram alegria na sua vivência da fé.
“Às vezes, a outra margem pode estar mesmo sentada num banco da igreja”, observou.
Ir ao encontro dessa margem deverá, por isso, ser mais do que uma estratégia pastoral.
“É uma nova forma de ser Igreja”, assente na oração, na capacidade de olhar para a realidade e no discernimento.
O dia de festa desta freguesia, que hoje celebra São Mateus, prosseguiu com uma procissão.




