Por Monsenhor António Saldanha e Albuquerque

São inóspitos e feios os lugares onde Deus decide falar. Não consta que fosse particularmente belo o lugar onde Abraão “ouviu” aquela “voz” que o convidou a começar uma estirpe nova e numerosa. Aquele pedaço de terra onde a sarça ardeu diante de um Moisés atónito, provavelmente nunca figuraria numa lista das mais belas paisagens do planeta.

Os “instrumentos” que o Criador utiliza, também deixam frequentemente muito a desejar segundo parâmetros considerados ótimos para um sucesso garantido. Aquele Abraão era velho como um tronco contorcido e a sua mulher há muito que deixara de sentir no corpo a seiva que gera vida. Aliás, no seu tempo devido, nunca concebera para lá do sonho de ser Mãe.

Moisés era um caso estranho. Hebreu com mentalidade egípcia. Geneticamente filho de um povo, mas culturalmente identificado com um outro. Além disso, era incapaz de falar sem tropeçar nas palavras. Mesmo assim foi investido como guia de um dos mais intrigantes êxodos humanos de que há registro e cujas consequências perduram.

Algumas das páginas decisivas da Historia da Salvação, fecharam os seus capítulos com vitórias sobre obstáculos aparentemente invencíveis, graças à coragem e fé de mulheres como Judite.

A mirabolante fantasia de Deus continua a fascinar-me com estes episódios, estas criaturas e lugares que Ele escolhe para “falar” connosco.

Fátima tem nesse sentido muito a ver com as dinâmicas de Deus que se descobrem no Antigo e Novo Testamentos. Desértica e fria era a Cova da Iria em 1917. As três crianças que viveram a experiência da visão da Mãe de Jesus, não eram de longe mais prometedoras do que o velho Abraão, nem muito mais eloquentes que um Moisés ou menos frágeis que Judite.

Faz até sentido o quanto aquelas crianças tiveram de sofrer para não sufocar a profecia sob peso do medo que sentiram, ou perante a perplexidade descrente dos pais, ou ainda por causa do ridículo e as ameaças de tortura.

O contexto histórico de Portugal acabado de sair de uma monarquia que agonizava em impasses e agora vivia uma República cheia de ideais, mas com graves contradições, os anúncios premonitórios de que uma Guerra de proporções nunca vistas estaria para acabar, a acertada profecia de que no horizonte se desencadeariam fenómenos naturais, enfim uma Mensagem embaraçante para alguns, misteriosa para outros, causa de conversão para muitos, não são os aspectos que mais me detém ou comovem especialmente.

Fátima obriga-me a ajoelhar porque era totalmente improvável. Que três crianças tenham entrado para lá dos confins do Mistério e tenham podido falar dele para nos recordar o fundamental da Boa Nova – crer em Jesus e converter-nos – não é razoável, nem perfeitamente previsível.

Talvez por isso mesmo foi tão difícil aos peritos teólogos da Congregação da Causa dos Santos, compreender e reconhecer não a Mensagem revelada em Fátima, mas a maturidade humana e espiritual dos seus primeiros porta-vozes. Mesmo com milagres atribuídos à sua intercessão, não foi simples nem directo o caminho para o reconhecimento da sua santidade.

Com a beatificação de Francisco e Jacinta, a Igreja abriu-se ainda mais à imprevisibilidade desconcertante de Deus.

Há pouco mais de cem anos, entre pedras e cabras, num remoto lugar de um País amesquinhado pelas grandes potências que se combatiam, três crianças viveram a experiência de Emaús.

Fátima é pois deixar-se conduzir pela mão da inocência, afinal o único meio de chegar ao seu Autor.