O “império do amor e da partilha” é vivido com particular destaque nas ilhas do grupo central

As festas em honra da Terceira Pessoa da Santíssima Trindade, um dos maiores traços da identidade açoriana, realizam-se este fim de semana,  um pouco por todo o arquipélago, altura em que o calendário litúrgico assinala o Pentecostes, que juntamente com o Natal e com a Páscoa, é uma das datas mais significativas do ano.

As festividades, que no continente perderam importância mas nos Açores “constituem um marco identitário do povo açoriano”, remontam ao tempo do povoamento e no século XVI já era generalizada a existência de Irmandades.

“È muito possivel que tenha vindo com os franciscanos porque no século XV o  culto estava muito espalhado e vivo no continente e como os franciscanos eram muito dados a este culto e foram eles que vieram no inicio do povoamento é possivel que tenham o tenham trazido para estas paragens” disse ao Sítio Igreja Açores Margarida Lalanda, Historiadora e Professora na Universidade dos Açores.

“A capacidade de inculturação numa cultura agrária explica, de resto,  a sua permanência tão viva nos Açores: a valorização da terra de onde vem o trigo e o milho a partir dos quais se faz o pão,  o vinho e a carne, aspetos nos quais se  materializam os dons do Espirito Santo”, é por outro lado, uma explicação dada pelo Vigário Geral da Diocese de Angra, Cónego Hélder Fonseca Mendes, para justificar a importãncia deste culto.

“A peculiaridade  principal deste culto no arquipélago é ser popular e desenvolver-se sob a forma de império, ou seja na dinâmica do império que tem as suas origens nos reis e nobres e que o povo achou tão interessante que se organizou em irmandades para repetir a mesma dinâmica”, ressalva o Cónego Hélder Fonseca Mendes, cuja tese de doutormaneto é sobre este culto.

“O rito da coroação diz que o Império do Espírito Santo é dos que são como as crianças, como os pobres, como os presos, etc. Se uma pessoa destas governa o dito império, a lógica do governo é outra do que a que os impérios que este mundo promove”, lembra o sacerdote sublinhando que “o culto tem uma forte carga profética e política, sem qualquer pretensão de imitação de papéis ou destituição de poderes”.

“O que é marcadamente açoriano é a forma do Império, e esta é uma iniciativa tipicamente popular, onde o mesmo Espírito também se manifesta”, diz Hélder Fonseca Mendes.

O Vigário Geral da diocese de Angra deixa mesmo um apelo: “O desafio é, por um lado, não esvaziar o Império da verdade do Espírito Santo como `pai dos pobres´ e, por outro, fazer com que o Espirito Santo `impere´ na sociedade e na Igreja. É esse o sonho dos pais fundadores do Império e dos nossos persistentes e resistentes antepassados”, adianta.

As festas do Divino Espírito Santo têm três componentes muito fortes: a oração e celebração com a coroação do imperador( na casa e na igreja); a festa comunitária, com os jantares, convívios e arraial e a dimensão social, com a distribuição de esmolas, de pão, vinho e carne aos irmãos e a todos os necessitados.

O estilo de vida comunitária que gera- “se fizermos um mapa dos impérios vamos encontrar a geografia das comunidades naturais que nascem à volta de uma realidade simples”-,  a importância da casa – “enquanto que a igreja centra a sua atividade religiosa no templo, no Espírito Santo a casa do imperador ou do mordomo é o centro de toda actividade onde se reza o terço e, por exemplo no Corvo onde se celebra a missa no último dia da semana em que a Coroa e a Bandeira estão na casa de um irmão”- e o império, constituem “outras peculiaridades” elencadas pelo Vigário Geral, que tornam este Culto “tão original” nos Açores.

Mas, é bom frisar que, apesar de constituir uma marca transversal à açorianidade- o próprio dia dos Açores é a segunda feira de Pentecostes- “vive-se de forma diferente de ilha para ilha” sublinha Margarida Lalanda o que tem a ver “com razões históricas e, sobretudo, com a evolução da prática do culto do Espirito Santo a partir de irmandades que fazem a partilha de bens materiais”.

“Na Terceira, por exemplo o colorido dos impérios é muito contrastante com os triatos que existem em São Miguel” lembra a historiadora destacando que se trata de um culto que “junta a realidade da construção que é fruto dos homens a uma graça de Deus” o que fez com que “a própria igreja nunca pusesse em causa a festa em causa porque percebeu o seu valor para a evangelização”.

Mesmo quando “existiram coroações com as igrejas de portas fechadas no século XIX”,  diz Margarida Lalanda as divergências resultaram “unica e exclusivamente” das “tentações de controle desde as contas da irmandades até às pensões, mas o povo sempre rejeitou essa ideia”, conclui.

O Cónego Hélder Fonseca Mendes vai mesmo mais longe referindo-se a uma “equidistância do poder eclesial mas também do poder temporal” pois no tempo dos Filipes de Espanha, “foram tentadas formas de regulamentação” que o povo “nunca aceitou”.

“Esta é marcadamente uma iniciativa laical” conclui o sacerdote reforçando a ideia de que se trata de “um culto profundamente enraizado na religiosidade popular- o que também é orginal nos Açores- cuja essência é a comunhão e a partilha”.