Por Renato Moura

Há quinze dias escrevi aqui, a propósito de “lições das eleições”, que “o povo gostará que as cúpulas entendam o que lhes quiseram dizer” e “se os políticos continuarem a recusar entender, haverá bons motivos para que, na próxima, os eleitores se sintam provocados a explicar melhor”.

No passado dia 8 os americanos exprimiram-se já, com clareza. Surpreenderam os analistas. Donald Trump foi eleito 45.º presidente dos Estados Unidos e venceu Hillary Clinton, a candidata melhor preparada de sempre! O Nobel da economia resumiu a estupefacção mundial: “América, mal te conhecemos” e “sinto-me atordoado”.

Tratar-se-á da resistência a métodos reprováveis dos poderes instalados. Não uma simples zanga, mas um descontentamento sobre o sistema que atingiu o desespero e quando a desilusão é grande, as reacções são emotivas e a escolha nem sempre é racional. Como o povo americano quis preconizar a mudança, nem cuidou de saber se seria para pior e nem sequer puniu a comprovada impreparação e as incongruências de Trump. Depois de uma longa campanha os americanos perceberam em quem admitiam votar, mas mesmo assim apostaram num candidato que prometeu rupturas, se não irrealizáveis, pelo menos radicais, em tantas áreas, como por exemplo no fecho de fronteiras e política de emigração, no livre comércio, no suporte da NATO, no relacionamento com a Rússia e até na alteração da política de luta contra as alterações climáticas.

Está visto que quando os eleitores estão fartos de certas políticas, optam por uma revolução silenciosa, escondem-se das sondagens, resistem às campanhas por mais profissionais, melhor elaboradas ou mais caras que sejam e não receiam provocar um terramoto.

Mas creio que as surpresas eleitorais poderão tornar-se frequentes. Ocorrerão nomeadamente como resposta à crescente ineficiência das instituições políticas, como penalização pela falta de soluções perante as crises, como resitência aos problemas da globalização.

As reacções poderão tornar-se perigosas, pois que em caso de fúria contra o sistema os eleitores facilmente se seduzem por discursos simplificadores e propostas de soluções simplistas, podem ser atraídos por demagogos, déspotas, burgessos, engrossando assim correntes populistas e totalitárias que podem ascender ao poder pela via do voto popular, mas rapidamente porão em causa a própria democracia e acabarão por adulterar comportamentos, leis ou até constituições.

É pois aos poderes constituídos que cabe a sua própria revitalização e a regeneração dos princípios.