Pelo Padre Teodoro Medeiros

O filme retrata a gestação, evolução e conclusão de um processo contra um padre: responsável pelo abuso de dezenas de crianças em França, tinha como principal qualidade a caraterística de não negar a sua culpa. Os abusos duraram pelo menos 30 anos, e o padre acaba mesmo por não pagar pelos seus crimes.

O primeiro protagonista, porque há vários ao longo do filme, é um calmo pai de família, católico praticante. Ao aperceber-se do regresso do “pedo-sexual” a uma Paróquia de Lyon, inicia um contato com a Diocese para o denunciar. A sua intenção é impedi-lo de continuar a trabalhar com crianças.

Através da secretária do cardeal de Lyon, chegará mesmo a um encontro com o perpetrador: é nessa cena que se confirma todo o equilíbrio do filme. Em mãos menos sérias, era aqui que começava o desastre, o apontar com o dedo para o que já está em evidência, o mungir a duas mãos a demagogia de um sentido único. Aqui, a cena acaba com os três que rezam de mãos dadas.

Em breve aparecerão outras vítimas: criarão a associação “Palavra Livre”, discutirão as medidas a tomar (serão tentados por algumas mais radicais) e veremos mais de perto o calidoscópio da verdade. Que passa pelas perturbações psíquicas e físicas dos agora adultos vitimizados, e pela passividade de todos, ao tempo e não só: os pais das crianças, o cardeal, os familiares mais próximos, a estrutura da paróquia.

Ozon, como qualquer grande realizador, não tem de fazer muito, a sua competência técnica expressa-se no não complicar a estória que conta: manifesta subtilmente a impreparação geral para algo que, no passado, era novo e isolado. É notável ainda o respeito que mostra pela Igreja: até o padre Bernard Preynat, o pedófilo incurável, é retratado mais como doente do que como corrupto. Só assim se entende a sua admissão clara das suas ações, e o relato das tentativas de se curar.

Menos subtil é a presença de François Debord, o ateu que, por assim dizer, mete os pés à parede e trabalha para a divulgação e julgamento do assunto tabu. Mas nem por isso é menos eficaz a ironia porque enquanto foi seguida a atitude de obediência, Preynat nunca foi parado. Sem propósito de emenda, a confissão da culpa não é suficiente.

É essa a grande função do cinema, mesmo o de intervenção, mesmo o documental: incomodar o espetador, rasteirá-lo, puxar-lhe as orelhas ideológicas, indagar sobre o seu sono dogmático. “Graças a Deus” não é filme de sentido único, porque denunciar não é o mesmo que escrever à pressa. Como Pascal que, ao escrever uma longa carta, pediu desculpa ao destinatário: “Se tivesse tido mais tempo, teria escrito uma carta mais curta.”

Ou seja, a expurgação deste horror não se faz com palavras prontas e promessas de circunstância: pelo menos desde o grande surto de divulgação de pedofilia na Igreja (da diocese de Boston, 2002), todas as consciências ficaram alertadas. A “solução” de transferir os padres infratores para outra paróquia caiu na desgraça. Nem todas as denúncias são credíveis, é certo, mas a maioria dos casos expostos a público não é apenas provável, é evidente.

Conta Heródoto que quando Dario foi atacou os citas, estes lhe enviaram um sapo, um pássaro, um rato e cinco setas. O rei interpretou o enigma: os citas rendiam-lhe a sua terra, o seu mar e os seus exércitos. Cedo se apercebeu, devido à evolução dos acontecimentos, que o significado era outro: a não ser que os persas voassem como um pássaro, esgravatassem como um rato, ou mergulhassem como um sapo, não escapariam ao exército cita.

Os significados são meros resultados das nossas ideias estabelecidas. As consequências dessas ideias nem tanto, como este filme demonstra. Um filme que, graças a Deus, pode agora constituir parte da educação de todos os cristãos.