Por Carmo Rodeia

Por estes dias somos convidados a colocar os olhos em Roma. Lá decorre o Sínodo dos Bispos sobre a família, que começou há uma semana, e reflete-se uma vez mais, sobre a importância da família e a sua missão na Igreja e no mundo.

Ninguém tem dúvidas sobre a importância da família. Aliás, atrevidamente para alguns, diria que esta discussão sobre família não é sequer um monopólio dos católicos, porque é uma grande causa humana. E nós, católicos, unimo-nos a todos os homens e mulheres da terra, porque todos nós nascemos no interior de uma família.

A “causa” da família chama-nos a nós igreja a unirmo-nos nesta grande batalha humana pela defesa, pela afirmação e, ao mesmo tempo, pela descoberta de um espaço de partilha, de encontros, desencontros mas de amor e de reciprocidade. Porque a família não é uma ideologia, mas uma experiência vital e de todos.

O debate ganha hoje um novo ímpeto porque há um desafio que se coloca a nós igreja: como lidar com as vulnerabilidades e sobretudo que respostas pastorais podemos dar a famílias feridas no amor e na reciprocidade, que são cada vez em maior número, sem abdicarmos da nossa matriz, trilhando sempre os caminhos sublinhados no Evangelho.

É óbvio que para nós cristãos a família de Nazaré é o modelo a seguir, não porque seja uma família tradicional, o que quer que isso signifique, mas porque é um exemplo do que é uma comunidade de amor, que é a essência da família.

Maria e José vão ao Templo cumprir as regras, cumprir as leis e a sua tradição, como as famílias faziam na altura. É um momento de identidade que funda a própria família: levar o Filho ao Templo, agradecer a Deus, cumprir os ritos purificatórios dos antigos. Eles vão e, no Templo, têm uma grande surpresa, porque o que lhes é dito sobre o seu próprio filho leva-os a ficar espantados e eles não entendem. Mas não deixaram de o amar. Colocaram-se ao lado Dele.

Os problemas na família de Nazaré foram muitos como todos sabemos. Aliás, aconteceu tudo praticamente ao contrário do que tinha sido planeado. Como na maioria das nossas famílias, por vicissitudes diversas que não importam aqui ser mencionadas. A família está longe de ser um lugar perfeito.

É célebre a frase com que Tolstoi abre o romance Anna Karenina – “Todas as famílias felizes se parecem, as famílias infelizes é que são interessantes”. A ideia de que a família é sempre um lugar de imperfeição, de crise, mas também de grande pobreza em que cada elemento é convidado a abrir o seu coração para receber o outro em qualquer circunstância, é uma evidência.

Algumas famílias conseguem viver nessa pobreza recíproca. Outras não. E nós, devemos condená-las por isso?

O Papa Francisco tem apelado incessantemente a uma pastoral de proximidade com as pessoas, na felicíssima frase “que o pastor cheire às suas ovelhas”. E nem todas elas cheiram ao mesmo. Aliás quase nunca cheiram.

Regresso uma vez mais a Tolentino Mendonça e ao seu livro “A Mística do Instante” para lembrar que, neste contexto do debate sinodal sobre a família, “é impossível pensar um caminho de fé que não tenha a ver com o que ouvimos, o que vemos, o que tateamos, o que nos chega através do odor, muitas vezes invisível, ou então do sabor de Deus”.

Hoje, mais do que nunca, a família tem de ser pensada e vivida com os sentidos. Os cinco. A Igreja sabe disso, por experiência, tal como sabe que o Cristianismo, “mantendo-se fiel à sua identidade e ao tesouro da verdade que recebeu de Jesus Cristo, não cessa de se repensar e reformular em diálogo com as novas situações históricas, deixando desabrochar a sua eterna novidade”, como refere o Papa no parágrafo 121 da Encíclica Laudato Si.