Ilhas do grupo central conservam tradição genuína da partilha

O Bodo, na ilha Terceira e os Impérios na ilha do Pico ditam o ritmo deste domingo de Pentecostes que no arquipélago dos Açores é vivido em torno das grandes festas do Divino Espirito Santo, em todas as ilhas.

Este é, de resto, um culto vivido por todos os açorianos, independentemente do sítio onde residam ao ponto do dia da Região Autónoma ser justamente a segunda feira do Espírito Santo, que este ano é comemorada na ilha das Flores, onde se assinalam os  500 anos de evangelização.

Na ilha Terceira, as festas têm uma força “muito original” e são vividas sobretudo na zona do Ramo Grande, onde a economia continua a ser predominantemente agrária, sendo bastante conhecidos, por exemplo, os impérios da Vila Nova e das Lajes pelo número de pessoas envolvidas.

“A capacidade de inculturação numa cultura agrária explica, de resto,  a sua permanência tão viva nos Açores: a valorização da terra de onde vem o trigo e o milho a partir dos quais se faz o pão,  o vinho e a carne, aspetos nos quais se  materializam os dons do Espirito Santo”, afirma o Vigário Geral da Diocese de Angra, Cónego Hélder Fonseca Mendes, para justificar a importãncia deste culto.

“A peculiaridade  principal deste culto no arquipélago é ser popular e desenvolver-se sob a forma de império, ou seja na dinâmica do império que tem as suas origens nos reis e nobres e que o povo achou tão interessante que se organizou em irmandades para repetir a mesma dinâmica”, ressalva o Cónego Hélder Fonseca Mendes, cuja tese de doutormaneto é sobre este culto.

“O rito da coroação diz que o Império do Espírito Santo é dos que são como as crianças, como os pobres, como os presos, etc. Se uma pessoa destas governa o dito império, a lógica do governo é outra do que a que os impérios que este mundo promove”, lembra o sacerdote sublinhando que “o culto tem uma forte carga profética e política, sem qualquer pretensão de imitação de papéis ou destituição de poderes”.

“O que é marcadamente açoriano é a forma do Império, e esta é uma iniciativa tipicamente popular, onde o mesmo Espírito também se manifesta”, diz Hélder Fonseca Mendes.

À volta dos Impérios desenvolvem-se durante vários dias as festividades do Espírito Santo, imbuídas de um ideal caritativo e compostas por um conjunto de cerimónias religiosas e profanas: a “coroação” do Imperador Menino, o desfile de cortejos e o bodo de pão e de carne.

Durante cada semana das festividades veneram-se as insígnias do Divino na casa do Imperador e reza-se o terço à noite perante a coroa e a bandeira. Na sexta-feira, os bois são enfeitados e realiza-se a “procissão do vitelo”. Posteriormente, sacrificam-se os animais necessários para o bodo que o Imperador oferecerá no domingo aos convidados, retalha-se a carne para a sopa, o cozido e a alcatra do jantar e para as pensões a distribuir pelos pobres da freguesia. No sábado faz-se a distribuição de esmolas, compostas de carne, pão e vinho, benzidas pelo padre.

No domingo de manhã realiza-se a primeira procissão, encabeçada pela bandeira do Espírito Santo. Na cerimónia da “coroação”, dentro da igreja,  o padre toma o cetro, dá-o a beijar a quem coroa e entrega-lho, e depois faz o mesmo com a coroa, colocando-a sobre a sua cabeça; asperge o Imperador, incensa-o e entoa-se o “Veni Creator Espiritus”. Depois da coroação a Coroa e a Bandeira vão em procissão até ao Império, de onde saem à noite para outra casa.

Refira-se a título de curiosidade que na ilha Terceira a própria paróquia pode ser mordoma da festa recebendo na Igreja as insígnias do Espírito Santo. É o caso por exemplo da paróquia de Santa Margarida, no Porto Martins, na ilha Terceira que entre este domingo de Pentecostes e o domingo da Santíssima Trindade vai ser “a anfitriã” do Espírito Santo recebendo na Igreja Paroquial a Bandeira e a Coroa. Durante esta semana além do terço, a paróquia organiza uma série de conferências, entre segunda e sexta feiras.

É também no domingo que se realiza o bodo ou a “função” para o qual todos são convidados, ricos e pobres, habitantes ou forasteiros. A ementa da “função” é composta pela sopa do Espírito Santo, alcatra, pão, armazenados nos Impérios ou nas despensas, pela massa sovada ou pelas rosquilhas (Pico) e vinho. Os irmãos escolhidos para realizar o bodo designam-se de Mordomos.

As festas do Espírito Santo começam no domingo imediatamente a seguir à Páscoa tendo como ponto alto nas ilhas referidas o domingo de Pentecostes e o da Trindade. Na ilha Terceira, os impérios prosseguem durante o verão, até ao Império de São Carlos, em setembro.

Na ilha Terceira, o culto do Espírito Santo está documentado desde 1492, data em que já se fazia o Império e se distribuía o bodo, no dia de Pentecostes, à porta de uma capela pertencente ao hospital do Espírito Santo.

A festa constava da missa do Espírito Santo, “coroação” e bodo e, se algum irmão  da confraria “tomasse o império” sem ter meios  para o desenvolver seria ajudado pelos restantes membros da irmandade.

Quando se instituiram as Santas Casas da Misericórdia na ilha Terceira, a de Angra, em 1495, e depois a da Praia, em 1498, instalam-se nos templos do Espírito Santo, acabando por se tornar as responsáveis pela organização dos bodos no dia de Pentecostes, facto que não afetou a criação de irmandades em todas as freguesias destes dois concelhos

As festas do Espírito Santo nos Açores possuem uma estrutura tradicional comum mas apresentam bastantes variantes entre as várias ilhas do Arquipélago e, dentro da mesma ilha, entre os vários Impérios.

O ciclo das festividades é, no entanto, comum. Este domingo e no próximo vivem-se os bodos e no final do bodo do próximo domingo tiram-se “as sortes” para conhecer os irmãos que vão ficar com as domingas, sete,  do próximo ano. Quem tirar a primeira “dominga” ficará com o Espírito Santo todo o ano em Casa, ou seja, a Bandeira e a Coroa ficarão na casa desse irmão, em lugar de destaque.