Por Renato Moura

No tempo da «outra senhora» os cantoneiros das Obras Públicas tinham poder de fiscalizar os actos ocorridos nas estradas nacionais. O cantoneiro António (nome fictício) não perdoava se apanhasse um porco fugido do curral a passear-se na via pública, elaborava a participação e o dono do animal tinha de pagar a multa respectiva. Certa vez foi o porco do dito cantoneiro visto na estrada e o António tomou a iniciativa de participar do próprio António.

Talvez sem lógica, mas lembrei-me do António, quando recentemente se ouviu a intenção, do Presidente do Conselho de Jurisdição Nacional do PSD, de abrir um processo contra o Presidente da Comissão Política Nacional do PSD.

Embora habitual, é pretensioso ouvir os treinadores de futebol a darem os parabéns aos seus jogadores, pelo facto de eles terem cumprido o plano definido para o jogo. Nunca se ouve os jogadores a julgarem publicamente os companheiros de equipa.

Certa vez pediram ao presidente de uma colectividade recreativa para explicar uma decisão da sua Direcção. Ele respondeu: não sei… eu só sou presidente!

Há poucos dias na Assembleia Legislativa Regional dos Açores ouvimos partidos tão coligados, já parecendo um partido de ideologia única; louvaram as iniciativas de cada uma das forças da coligação, como se fossem proponentes. E até tomaram como próprias as exigências dos partidos (que não coligaram, mas colaram) necessários à garantia de maioria.

Também se viu um partido considerando o Plano e Orçamento como sendo, no essencial, seguidismo da sua governação, mas votaram contra… pois o momento é outro.

Recentemente ouviu-se um Presidente de Governo a louvar as promessas governativas do seu Vice-presidente, dos seus Secretários e Subsecretário e a arrimado citar significativos excertos dos discursos destes.

Há perguntas lógicas e legítimas de quem ainda se preocupa com o futuro: Se nada de estrutural mudou, só dar mais é inversão de políticas? Não haverá, todavia, medidas importantes, mesmo se avulsas? Que membros do Governo satisfazem e quais decepcionam? Quem ultrapassa os limites do respectivo poder? Louvam-se todos os membros do governo para salvar algum, entretanto posto a arder? Porventura uns ainda não perceberam que são governo; e outros que já são oposição?

Na verdade, o povo tem o direito de estar atento, escrutinar, para entender tudo perfeitamente. Sem embarcar na demagogia, nem no populismo, venham de onde vierem. Percebendo e distinguindo as surpresas para distrair e as incongruências que matam valores da autonomia.