Por Carmo Rodeia

Não sou bombeira mas julgo que todos nós, nas últimas horas, temos sido de uma forma ou de outra mobilizados para o inferno. Através das imagens das televisões, dos diretos e dos relatos de jornalistas e populares, sentimo-nos mobilizados para combater os incêndios que nos últimos dias não têm dado tréguas à região centro do país.

O cenário dantesco que nos é apresentado convoca-nos a todos a uma solidariedade que é própria destes momentos em que se perdem vidas humanas e bens materiais, mas que também não nos devem deixar sossegados ou longe da indignação. E, não é pelo facto de hoje, de cada vez que há uma tragédia termos de imediato a presença das mais altas autoridades do país que os problemas ficam resolvidos, e devemos ficar sossegados. Bem pelo contrário!

O conforto sabe bem; os abraços e os beijinhos ainda sabem melhor porque dão um rosto humano a quem decide mas não chegam nem constituem uma revolução das políticas e sobretudo não devem desviar-nos do essencial que é perceber o que aconteceu e encontrar as causas identificando os seus responsáveis. Pode até nem ser tempo de acusações mas também não podemos permitir o silêncio, depois de apagadas as chamas.

O fogo de Pedrógão-Grande, que depois se estendeu a Figueiró dos Vinhos e a Castanheira de Pêra, no distrito de Leiria, teve as origens mais naturais possíveis, mas ocorreu numa região, numa época do ano e num contexto meteorológico em que os incêndios florestais não são extraordinários. Apenas para as autoridades que em Diário da República declaram a época de incêndios a partir do dia 1 de julho, esquecendo os efeitos das alterações climáticas, só assim para começar. É difícil, por isso, não admitir a hipótese de ter havido responsáveis, nem que seja ao nível da prevenção que, muito naturalmente, é a principal falha de todo este processo.

O fogo é natural (e desta vez parece que foi mesmo!) e quando ele se instala não há culpa, mas há responsáveis e é de responsabilidade que se deve falar.

Não podemos andar a falar do aquecimento global (que está longe de ser uma invenção dos chineses!), e depois não conseguirmos sequer prevenir uma situação que acontece repetidamente todos os anos, nesta altura.

O estado tem vindo a reflorestar a paisagem portuguesa com espécies económicas, como o pinheiro e o eucalipto, de crescimento rápido. Nessas matas ergueram-se casas desordenadamente, que acabaram por ser abandonadas devido ao êxodo rural. O mato vai crescendo e ninguém cuida dele, até porque os que ficaram, na sua maioria idosos, além de não terem forças não têm recursos para o fazer. São eles os protagonistas desta luta desigual, os que aparecem nos telejornais de mangueira e baldes em punho, ao lado dos bombeiros e recebem os tais beijinhos que confortam mas não resolvem.

É assim que temos administrado a nossa casa comum em Portugal, ambiental e humanamente falando.

Por ocasião do Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação, iniciativa ecuménica, em setembro do ano passado, o Papa Francisco alertava para o facto do planeta continuar a aquecer, em parte devido à atividade humana o que provoca secura, inundações, incêndios e acontecimentos meteorológicos extremos cada vez mais graves.

Francisco ligava as mudanças climáticas à “dolorosa crise dos migrantes forçados”, à pobreza global, ao egoísmo e a comportamentos inaceitáveis.

Retomando o que escreveu na sua encíclica ‘Laudato si’, Francisco falava numa “ecologia integral” em que todos os seres humanos estão “profundamente ligados entre si” e com a natureza, deixando criticas à “mentalidade de curto prazo” na política e na economia, marcadas pela “busca de imediato benefício financeiro ou eleitoral”.

O Papa Francisco chegou mesmo a apelar à ideia do cuidado pela criação ser uma nova obra de misericórdia, o que se pode traduzir em gestos como, por exemplo, “cultivar um pequeno jardim”.

É bem diferente de erguer matas que só servem… para arder. As pessoas merecem afecto e  consolação. Mas merecem mais. E depois deste conforto inicial, o debate tem de ser feito. Em nome das vidas que se perderam e que todos os anos se perdem no combate aos incêndios.