Pelo Pe Teodoro Medeiros

A reflexão sobre a sociedade é sempre boa. Dois filmes recentes apresentam sobretudo as facetas globalização e economia. O primeiro chama-se “Se as montanhas se afastam”, do realizador chinês Zhangke Jia. Em 3 episódios diferentes, nos anos de 1999, 2012 e 2025, acompanha-se a vida de Tao (a atriz Tao Zhao é esposa do realizador).

O filme não é perfeito; sobretudo porque as referências ao simbolismo são muito explícitas. Que o filho se chame Dollar ou que afirme que não tem mãe são momentos que garantem que até os distraídos não se distrairão. A mensagem é clara; a globalização é insalubre, desvirtua as pessoas e tira-lhes as suas raízes. Ainda a esse respeito, perde alguma força a imagem do filho que não fala a língua do pai (se viviam juntos desde a infância!). É o simbolismo, recordemo-nos.

Mas há momentos redentores, há aqui cinema de alto nível. Talvez a concordar com Hitchcock quando dizia que o verdadeiro cinema era o mudo; o que se vê é que conta e não os diálogos. Em muitos dos momentos de diálogo, apenas a cara de um dos atores aparece; é lhes dado o tempo para mudarem de expressão, para mostrarem a frustração, para chorarem sem paliativos. Pois é; neste tempo de apps, teclados e monitores vários, é fácil esquecer que antes era o rosto humano.

E é nessa tecnologia de ponta (o rosto dos personagens), que se joga a comunicação que recebe e transmite ao mesmo tempo; antena, válvula, janela da alma e o que mais se quiser. A mesma técnica de se concentrar num rosto surge em “A lei do mercado”, do francês Stéphane Brizé. O filme que reflete sobre a economia.

Um homem desempregado, Thierry, discute com um funcionário dos serviços de emprego a ineficácia das acções de formação em que teve de participar. Deu-se o caso de ter frequentado cursos que se revelaram depois inúteis. Não o teriam sido se lhe tivessem perguntado mais sobre a sua experiência profissional: -“de que serviu se depois, para se ser contratado, é necessaria uma experiência mais vasta para poder concorrer?”

Quase sempre, a câmara repousa sobre o corpo e o olhar de Thierry, mesmo quando ele está calado ou pouco faz. A estratégia humaniza a crítica subjacente a, precisamente, a lei do mercado laboral. Trata-se de um quase documentário sobre as dificuldades de quem está no nível mais baixo dessa cadeia. E que é apresentada aqui nos

seus contornos mais predatórios, no sentido que o funcionário dispensável é facilmente despedido.

Se Vincent Lindon tem uma prestação notável, não o são menos as de tantos personagens secundários. Entre homens e mulheres comuns, apresentados no contexto do dia-a-dia de um supermercado, é quase justo que se lhes retire a etiqueta de secundário. São quase todos assombrosamente “reais”. Se bem que real, por si, é um mau critério de cinema; real aqui é rico, cheio, próprio de um rei. E estes nem durante um segundo vacilam.

A globalização desumaniza, a economia mata (como gosta de dizer o Papa Francisco). É bom ver cinema de autor, daquele que quer ser denúncia sem comprometer o seu valor artístico, a tratar estes temas que nos permeiam de várias maneiras. Como diz um letreiro à porta de um restaurante português:

-Não temos Wi-fi: conversem entre vocês.