A companhia que me transporta a Bruxelas ainda distribui jornais a bordo.


Apesar de ser o Le SOIR, foi entregue de manhã. Claro que primeiras   páginas estão preenchidas com os acontecimentos do dia 7 deste primeiro mês do novo ano. Com reproduções de caricaturas à volta do Charlie, quase esquecendo que o principal e mais grave foi o assassínio bárbaro de pessoas. Não param os comentários  sobre os acontecimentos e suas causas e o mais belo, a marcha pela liberdade. Percebe-se que são  também pretexto para debitar ideologias que já existiam e iluminavam acontecimentos que nada têm a ver com os  que nos têm ocupado e preocupado nos últimos dias.

Depois do Dia D, com três milhões de manifestantes em Paris e outros tantos exemplares do jornal satírico, apanham-se os restos de toda esta tragédia. Só que as réplicas não terminarão tão cedo, mesmo após o seu arrefecimento emocional. É a história que continua, em novos e surpreendentes capítulos.

Mas há um elemento que continua, tácito ou expresso, nas conversas que vão para além dos acontecimentos de primeira página: a diferença. As diferenças de culturas, raças, políticas, credos, ideologias. Esse mosaico é cada vez mais evidente, na expressão de fanatismo religioso de diversos  quadrantes, ou mesmo dum ateísmo que se coloca   ao lado das religiões com o mesmo estatuto de cidadania, fazendo da sua negação uma afirmação corporativa.

Onde já vou eu a 12 mil metros, com o LE SOIR diante de mim!
Há mais dois grandes espaços na primeira página. Para um editorial, e para notícias dispersas à volta da crise e da francofonia. Vou voltando as folhas ruidosas no espaço apertado do avião e dou por mim com um página inteira com quadrados  de necrologia. Traz anúncios de falecimentos, com sinais  gráficos da crença de cada  defunto e sua família, e a forma  de celebrar  os funerais. Desses anúncios, apenas dois imprimem o sinal da Cruz. Outros trazem sinais judaicos, outros o compasso e o esquadro, outros imperceptíveis, de recente criação. E cada um descreve, em poucas palavras a forma como pretende  as cerimónias fúnebres . Alguns sugerem a forma de manifestar a simpatia para com o falecido. Um diz expressamente:”nem flores, nem coroas. Se quiser pode manifestar a sua  simpatia   através duma doação para uma casa  Esperança. E muito mais literatura se desenrola nestes  anúncios. Todos iguais na morte, todos diferentes na expressão.

Antes de mais vejo e aprecio um respeito e afeto pelos falecidos. Mas tomo nota do mundo novo em que vivemos, no coração da Europa, onde as diferenças são a marca dominante em todas as áreas. Com uma proclamação pública que reflete exactamente grandes diferenças em acontecimentos comuns. No caso, a morte cidade da paz.

A doze mil metros de altura penso nos que partiram e habitam uma casa comum. E no Deus criador que nos aceita como somos, por mais bizarras que sejam as nossas crenças e descrenças. Por cá temos dificuldade em entender-nos e suportar as nossas particularidades. Nas mãos de Deus não é assim. Imagino, por isso, o que será o juízo final. Só mesmo Deus para deslindar a babilónia que parecem as nossas vidas, crenças e  culturas. Um dia havemos de perceber. Por isso pedimos para, no outro lado, descansarmos em paz.

Já  anunciaram  nos altifalantesque vamos aterrar. De facto andei um pouco pelas nuvens…
P.António Rego