Por Renato Moura

Os excluídos do ponto de vista litúrgico colocaram uma grande esperança na exortação apostólica “Amoris laetitia”. Viu-se nela uma grande abertura do Papa Francisco; no Ano da Misericórdia. Mas não faltaram depois as interpretações reductoras.

Da Assembleia Plenária da Conferência Episcopal Portuguesa veio agora, finalmente (por forte e benéfica influência?), um sinal aparentemente positivo, com a declaração de que “as exclusões do ponto de vista litúrgico” colocadas a divorciados recasados “podem e devem ser revistas” tendo em conta cada caso. E mais: “O Papa insiste muito nesse ponto, e nós com ele, e vamos ver até onde isto nos pode levar” e ainda “Vamos ver o que é possível. O que for possível e conveniente faremos de certeza”.

Mas poderemos interrogar-nos: pois se “são histórias pessoais que divergem muito de umas para as outras”, se “há as pessoas, muito distintas nos seus percursos” e se “efetivamente não é tudo a mesma coisa, os casos não são todos iguais”, então como se deve aguardar “indicações mais concretas” do Vaticano sobre os aspetos que podem ser revistos, se na interpretação de muitos o Papa quis deixar esse discernimento e integração aos pastores?

Acreditamos que, conforme ainda recentemente nos recordou o Papa, “Devemos ter esta certeza no coração: Deus não nos abandona nunca”. Será aliás muito benéfico que todos nós – leigos e pastores – absorvêssemos os ensinamentos que o Santo Padre oferece, de forma simples e humilde, mas clara e directa, nas suas homilias, quase diárias, em Santa Marta e já publicadas em livros. Por ora reproduzimos estas: «Poucas palavras, palavras simples, mas práticas para todos, porque o Cristianismo é uma religião prática: não é para ser pensada, é para ser praticada, para ser realizada»; «”Sou pastor ou sou um funcionário desta ONG que se chama Igreja?” Há uma diferença. Sou pastor? Uma pergunta que eu devo fazer a mim próprio, que os bispos devem fazer, e também os padres: todos. Apascenta. Pastoreia. Segue em frente»; «É mais importante a graça do que toda a burocracia. ”O que é que impede o quê?” Recordemos isto. Muitas vezes nós, na Igreja, somos uma empresa que fabrica impedimentos, para que as pessoas não possam chegar à graça. Que o Senhor nos faça entender isto».

Está a concluir-se o Jubileu da Misericórdia. Mas não acabou a missão misericordiosa da Igreja na reconstrução das pessoas e da sociedade, pois que como vincou o Cónego Ricardo Henriques “a porta ficará aberta porque a porta da misericórdia é o próprio Cristo”.