O Bom Papa

Por JoãoAmaral

 

Invocar a memória de João XXIII, agora Santo, não é um exercício fácil, mas é justo, apesar de ultimamente, o Vaticano ter embarcado numa canonização quase em série de pontífices.

Angelo Roncalli nasce em Itália ainda no século XIX, de origem humilde é chamado ao sacerdócio. Pela graça de Deus, ascende na hierarquia da Igreja e, em 1958 é eleito ao trono de Pedro. Este homem, já idoso, é visto por muitos dentro da Cúria como um papa de transição, reza-se por um papado curto e tranquilo. Espera-se que Sua Santidade se mantenha enclausurado por detrás dos espessos muros do Vaticano, transportado a ombros na sédia gestatória, embalado por cânticos gregorianos. Mas, subitamente, abate-se sobre o Vaticano o fogo e o vento do Espírito Santo. João XXIII é envolvido pelos tempos, a guerra fria, a corrida ao espaço, um mundo em ebulição. A Igreja acorda depois de um longo sono, mas fechada sobre si própria, recusa-se a olhar o mundo. O Papa avisa que há que abrir a janela da Igreja para que pudéssemos ver o que acontece do lado de fora e para que o mundo pudesse ver o que acontece na nossa casa. A Igreja resiste, como uma velha nau de grande calado e lastro a quem tentam mudar o rumo. Range, estremece e muitos reclamam para quê alterar agora uma rota milenar?

João entende os sinais dos tempos e convoca um concílio, o segundo na longa história da Igreja. Congregam sobre Roma os representantes do povo de Deus, como se de aves sedentas se tratassem. Os trabalhos do Concílio iniciam-se com uma alegria própria de colegiais nos primeiros dias de aulas. Desfralda-se a tapeçaria multicolor que é a Igreja e em São Pedro ouvem-se múltiplas vozes feitas coro.

No entanto, poucos sabem, mas o Papa está doente, tem cancro do estômago, mas segue em frente com a sua missão. Sua Santidade pressente que está numa corrida de estafetas e tem fé que o seu sucessor pegará no seu testemunho. O Senhor chama Angelo para Si no dia três de junho de 1963, estamos em pleno Concílio, e caberá a Paulo VI a conclusão dos trabalhos e subsequentemente a implementação das suas reformas.

Nas últimas décadas, muito se tem debatido sobre o sucesso, ou não, do Concílio Vaticano II. Em alguns recantos da terra e da Igreja, alguns saudosistas tentam fechar novamente as portas das Igrejas, confundindo imperium com o reino. Refugiam-se em rituais fastidiosos, paramentos adamascados, brocados dourados, declinações do latim, visões de Cristo em plumas de incenso. Mas queremos mesmo voltar a uma Igreja fechada, enclausurada, centrada em si própria, clerical, literalmente de costas voltadas para os leigos, incompreensível para o vernáculo dos povos?

Muito mais há a dizer sobre São João XXIII. Para além dos filmes, documentários e livros, há um homem generoso, chamado pelo Senhor para uma missão difícil, mas não impossível. Convido a todos para um encontro pessoal com este Santo. Graças a Deus, a Igreja estará sempre no mundo e graças a João XXIII manter-se-á aberta a todos que queiram entrar. Mas nenhum legado é um dado adquirido, cabe a cada um de nós como Cristãos em geral, e Católicos em particular, espalhar a boa-nova por todo o mundo, levar Cristo aos nossos e irmãos e irmãs, e prosseguir o trabalho do Bom Papa.

 

Scroll to Top