Por Renato Moura

Como prometido, na semana passada, regresso ao livro “A Lista de Bergoglio”, de Nello Scavo. A leitura do livro é aliciante e só ela completamente esclarecedora sobre a atitude do padre Bergoglio, na Argentina do tempo da ditadura, em que os militares ganharam a guerra mas não procuraram a paz, mas pelo contrário proibiram actividades políticas, associativas e sindicais, dominaram jornais, sequestraram políticos e activistas sociais. Foram mais fundo enchendo prisões, fazendo desaparecer pessoas e até apropriando-se dos recém-nascidos filhos das reclusas.

Foi neste ambiente que o sacerdote que hoje é Papa desenvolveu, na clandestinidade a sua acção humanitária em prol dos perseguidos. O livro inclui testemunhos de pessoas concretas que lhe devem a vida e contaram as circunstâncias reais e de grande risco através das quais Bergoglio conseguiu subtrair das garras do regime ditatorial, absoluto e impiedoso, entre 1976 e 1983, vítimas humanas que já tinham sido empurrados para o beco que os levaria à morte.

A leitura do livro traz-nos os relatos das formas astutas e inteligentes como Bergoglio despistava os serviços secretos, os cuidados que tinha e recomendava para subtrair a correspondência e as comunicações telefónicas ao controlo dos militares e a forma como mantinha informados os seus superiores eclesiásticos sobre a situação; e também a coragem com que chegou a desafiar poderosos militares.

Ao longo de mais de duas dezenas de páginas transcreve-se o interrogatório ao cardeal Bergoglio, para documentar um processo de julgamento, em 2010, de responsáveis pelos crimes da ditadura, conduzido pelo Tribunal Oral Federal, que sendo por si mesmo esclarecedor da sinceridade e transparente disponibilidade para facultar todos os documentos, permitiu que os três juízes do referido tribunal concluíssem que não se podia atribuir nenhuma responsabilidade criminal ao cardeal-arcebispo.

A transcrição de um documento da Amnistia Internacional produzido logo que o Cardeal Bergoglio foi eleito Papa, permite verificar que esta organização internacional para os direitos humanos – alheia a simpatias “católicas” –  não sustentava qualquer acusação contra ele.

O autor esclarece que para o livro não teve “nenhum contributo da Santa Sé”,  conclui que foi o próprio Bergoglio a dirigir os que resgatou ou salvou para o “caminho do silêncio e não da publicidade” (que foi difícil quebrar), parecendo ter encarnado a frase evangélica de Mateus «Que a tua mão esquerda não saiba o que faz a tua direita».