Por Carmo Rodeia

Roubo a frase ao impressionante texto da minha colega de profissão Rosa Pedroso Lima do jornal Expresso, escrito na primeira pessoa (coisa rara nos jornalistas, sobretudo da imprensa escrita que só o fazem numa situação excecional), depois de ter sido apanhada pelas chamas de um incêndio. Um dos inúmeros fogos que grassam em Portugal continental por estes dias de calor intenso, onde só a conjugação da vontade de homens e mulheres doentes, aliados à força da natureza e com a bonomia igualmente criminosa dos responsáveis políticos ao longo de décadas, nos ajudam a assimilar uma realidade que nos deixa devastados.

“Este é o relato de quem sobreviveu ao fogo. “Sobreviver” parece forte demais. Mas não é. O verbo é mesmo esse, porque um incêndio é uma batalha desigual. Ele é forte demais, grande demais, rápido demais. Num instante, o ar queima. As distâncias encurtam-se. As chamas, que estavam longe, surgem ao nosso lado. Falha tudo. Não há armas suficientes”, escrevia a Rosa Pedroso Lima.

O fim de semana que agora termina foi devastador. Bateu todos os recordes.

Os incêndios florestais consumiram este ano 13.530 hectares, uma área ardida dez vezes superior ao mesmo período de 2016, segundo números avançados pelo Governo.

Entre Janeiro e Maio deste ano deflagraram 4.839, mais 3.951 do que no mesmo período de 2016. No mesmo período de 2016 existiam 1.203 hectares de florestas consumidas pelas chamas.

Desde 1980 mais de 200 bombeiros foram imolados no combate aos incêndios, para além dos mortos entre os civis. Só este ano foram 62, de uma só vez.

A situação é mais do que aberrante; é mesmo insuportável.

Apesar das justificações imensas, que variam de acordo com a responsabilidade de quem justifica- fogo posto, a que dá mais jeito, mas também as condições meteorológicas que nos conduziram a uma generalizada condição de seca severa; falta de limpeza da floresta; interesses obscuros das celuloses; etc, etc-,  todas se traduzem nos mesmos resultados, que a bizarra expressão “época de fogos”, generalizada até no Diário da República que a determina a partir do dia 1 de julho,  torna ainda mais abominável, pela tentativa de atribuir uma normalidade a uma situação difícil de compreender.

A verdade é que estamos diante de uma manifesta incapacidade de soberania do estado português, que não consegue gerir em condições o seu território.

Décadas de êxodo para as cidades do litoral criaram a ficção de que existe um “interior” no país. A interioridade, objetivamente, é política e não geográfica. Um pouco como a dupla insularidade a que algumas ilhas do nosso arquipélago estão cada vez mais votadas.

Se é certo que a geografia vale outro tanto como a história, também é certo que quem decidiu que um território, antes humanizado pela agricultura, pela silvicultura e pela pastorícia, fosse substituído por terras não cadastradas de proprietários ausentes, colocando no lugar de uma agricultura de subsistência povoamentos imensos e negligentes de monoculturas de eucalipto e pinheiro-bravo ou simplesmente matos, sem o menor cuidado, não pode ter perdão.

Há um desmazelo estratégico que não é desculpável apenas por condições meteorológicas, e há sobretudo uma enorme falta de vergonha de quem procura encontrar bodes expiatórios sem assumir a sua responsabilidade, mais que não seja política, porque é disso que estamos a tratar.

As opções de ordenamento de território, de organização da propriedade fundiária, das espécies cultivadas ou do investimento (ou falta dele!) em medidas de prevenção são tomadas por pessoas, por equipas de pessoas. E quando as pessoas falham por opções erradas devem ser substituídas. Afinal o que está em causa é servir o bem comum e não apenas o bem de alguns.

Na Encíclica Laudato Si, o Papa Francisco coloca-nos como administradores de uma casa que não é nossa e que nós temos a obrigação de legar às gerações vindouras, senão melhor, pelo menos igual. O Santo Padre propõe o modelo de S. Francisco de Assis, de quem se aprende como são “inseparáveis a preocupação pela natureza, a justiça para com os pobres, o empenhamento na sociedade e a paz interior”.

“O ambiente humano e o ambiente natural degradam-se em conjunto”, atingindo os mais fracos. E os mais fracos, aqui, somos nós. Que não nos falte o direito à indignação, pelo menos…