Por D. José Avelino Bettencourt*

“O Martírio da Paciência” foi o título dado a um livro escrito pelo antigo Secretário de Estado da Santa Sé e Chefe da diplomacia pontifícia, o Senhor Cardeal Agostinho Casaroli (1914-1993). Na vida sacerdotal como na vida diplomática nos vários pontos do mundo, constatamos que, por vezes, a única coisa em que se pode contribuir é manter a paciência e a perseverança, deixando no processo uma boa impressão da própria fé em Cristo e na Igreja Católica.

Nas antiquíssimas terras bíblicas da Arménia e Geórgia, tornamo-nos conscientes que cada uma destas terras se distingue pela própria história, tradição e cultura. São as primeiras nações cristãs, a Arménia convertendo-se ao cristianismo em 301 e a Geórgia em 326. São terras bíblicas, onde os Pais do deserto estabeleceram mosteiros, igrejas e a pregaram a fé, onde passaram homens e mulheres considerados “apóstolos” destas terras. A região do Monte Ararat é “sinónimo” da Arca de Noé, onde depois do dilúvio, se iniciou uma renovada Aliança com Deus. E a própria história da Geórgia começa com as palavras “Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo… os descendentes do Profeta Noé povoaram esta terra…”. São terras místicas, onde o vinho se produz há 8000 anos e, segundo os contos, Noé gozou do abundante néctar das mais das 800 castas de vinhas oriundas da região. São terras onde o leite e o mel correm da abundante cornucópia natural do Cáucaso; é onde se toca com a própria mão nas “rochas” das raízes cristãs. São terras onde os “caminhos da seda” se encruzaram, os contos mitológicos gregos da “lã dourada” são recontados, e se saúda os que passam com gamarjos, “a vitória esteja contigo” sinónimo da saudação de “bom dia”.  O Senhor é Bom!

Esta é também uma região onde alguns dos mais tristes e sanguinários episódios da história humana sucederam, em particular a grande tragédia arménia do século passado. E agora, o renovado antigo conflito na contestada região de Nagorno – Karabakh, torna-se um ulterior momento onde o “ódio” visceral não permite a coabitação entre povos, nem tão pouco permite um “diálogo”. É mesmo neste contexto e neste momento que o Papa Francisco tomou a decisão de abrir uma nova nunciatura apostólica na região, em Erevan capital da Arménia, porque parente Deus “O martírio da paciência” também tem o seu valor espiritual. Por vezes a paciência do crente é a única opção viável.

*D.  José Avelino Bettencourt é Núncio Apostólico na Arménia e na Geórgia