Pelo Pe Teodoro Medeiros

“Se alguém disser a este monte: ‘Tira-te daí e lança-te ao mar’, e não vacilar em seu coração, mas acreditar que o que diz se vai realizar, assim acontecerá.”

São Marcos, 11, 23

A história que inspira o filme Fitzcarraldo, do realizador Werner Herzog, refere-se a um empresário de borracha, Carlos Fermín Fitzcarrald. Este explorador chegou mesmo a desmontar um barco, peça por peça, para fazê-lo passar por terra de um rio para outro, evitando os rápidos. Fitzcarrald é também a forma como se pronunciava Fitzgerald no Perú.

A partir desta ideia simples, Herzog escreveu uma das histórias mais poéticas de sempre no cinema. O Fitzcarraldo do filme é um empreendedor falhado de uma linha de caminhos de ferro. Apaixonado pelo teatro de ópera, decide construir uma sala em Iquitos, no meio da selva, para acolher espetáculos daquela arte. Sonhador ousado, não permitiria que a sua pobreza recente atrapalhasse tão alto desígnio. Mas é a sua amada quem lhe dá o dinheiro para iniciar tal empresa.

O plano passa por recolher borracha até ter o lucro suficiente. A isso serve o barco de 300 toneladas, recuperado para o efeito e que terá de ser arrastado colina acima, até descer ao outro rio. Fitzcarraldo tem olhos azuis alucinados, de profeta, e o cabelo dourado em irrepreensível desalinho; ele move tudo à sua volta, com a persistência, a teimosia, a raiva de quem se sente apenas a começar ali quando a maioria já se rendeu ao fracasso. Santo ou louco?

Ele abdica de tudo em prol do valor mais alto, a missão a cumprir. Lança-se rio acima com uma pequena tripulação, enfrentando a possibilidade de morrerem às mãos dos perigosos índios. Leva um trunfo na manga; um gira discos com a voz do seu Caruso. O mito de Orfeu é retomado; a música encantatória é capaz de pôr toda a tribo a comer da sua mão, como se ele fosse um deus. E serão eles a mão de obra para conseguir levar o barco a bom rio.

A produção durou 5 anos e conheceu todo o tipo de contratempos; mortes, atrasos, revoltas, doenças, desânimos, problemas de logística e dificuldades em lidar com os indígenas, também atores no filme. Duas equipas diferentes foram necessárias até que o monstro de ferro superasse a colina em questão. Herzog foi aconselhado a desistir pelos investidores a quem pedia mais ajuda. Disse que não, que isso seria desistir do seu sonho e que não queria viver num mundo assim. O primeiro protagonista teve de ser substituído quando o médico o proibiu de voltar à Amazónia. Herzog pensou que talvez tivesse de ser ele o novo ator, mas acabou por escolher aquele com quem tinha uma espécie de relação amor-ódio, o inimitável Klaus Kinski.

Nenhuma destas desgraças interessava; o filme tinha de ser feito e exatamente da maneira em que tinha sido idealizado. Fitzcarraldo revela-se como uma clara projeção do realizador, um sonhador disposto a todo o suor, sangue, lama e lágrimas que o mundo pode acumular. Existe um documentário sobre a feitura do filme, “Burden of Dreams”, e é tão fascinante como a obra principal; as peripécias das filmagens e os comentários de época de Herzog expõem cruamente o que acima se disse.

E o filme Fitzcarraldo? Uma declaração de amor à música, à natureza e à condição partilhada de uma humanidade em várias condições. Um fresco de cinema tão imponente quanto compacto e sujo; alucinante mas sem as derivas patetas dos heróis que venceram à partida. Não há lugares comuns, tudo corre a um ritmo tão lento como a vida mas tão intenso como um pesadelo. Como a experiência de apaixonar-se… ou de ler a Bíblia pela primeira vez. Um dos poucos casos em que um filme resume o que é importante para viver.