Por Carmo Rodeia

O mundo, político e social, acordou frustrado e aterrorizado com a vitória do Donald Trump. O que parecia impossível tornou-se realidade. Desdobraram-se os comentários sobre a eleição,  com mensagens dos diferentes quadrantes.

Da Europa surgiu, pela primeira vez, a várias vozes, o essencial de um coro que finalmente pareceu afinado: é necessária uma cooperação estreita entre o velho continente e os EUA, baseada nos valores comuns democráticos e de respeito ao outro. A Europa e os Estados unidos estão ligados por valores como a democracia, a liberdade, o respeito ao direito, à dignidade humana, independente da cor da pele, da religião, do sexo, da orientação sexual ou das convicções políticas.

Mas, a melhor reação veio do Vaticano. O Papa Francisco, quando foi instado pelos media para reagir à eleição do 45º presidente dos Estados Unidos, disse que não fazia “julgamentos sobre pessoas e líderes políticos”, antes preferia preocupar-se e debruçar-se sobre o impacto das políticas nos mais pobres e excluídos.

Nesta “não reação” o Papa afirma, no entanto, que o drama dos refugiados e imigrantes são a sua maior preocupação e disse que é preciso “derrubar muros e construir pontes” que permitam diminuir as desigualdades e “aumentar liberdades de direitos” e “o bem-estar”.

“O que queremos é a luta contra a desigualdade, este é o maior mal que existe no mundo. É o dinheiro que o cria”, desenvolveu.

Questionado sobre o mandamento “ame o seu próximo como a si mesmo”, Francisco lembrou que a ideologia mais próxima do cristianismo seria porventura o marxismo: “Cristo falou de uma sociedade em que os pobres, os débeis e os excluídos é que decidem. Não os demagogos, os barrabás, mas o povo, os pobres, tenham fé em Deus ou não, mas são eles que temos de ajudar a obter a igualdade e a liberdade”, realçou. Neste contexto, incentivou os católicos e os movimentos populares a envolverem-se na politica “não por poder mas para derrubar paredes e desigualdades”.

“Não na politiquice, nas lutas de poder, no egoísmo, na demagogia, no dinheiro, mas na alta política, criativa e de grandes visões”, explicou.

“Os cristãos sempre foram mártires, mas a nossa fé ao longo dos séculos tem conquistado grande parte do mundo. É claro que tem havido guerras apoiadas pela Igreja contra outras religiões e houve mesmo guerras na nossa religião”, recordou, adiantando que “não é esse tipo de conflito” que os movimentos populares cristãos devem seguir.

Sem querer falar sobre Trump, o Papa, uma vez mais ao seu estilo, disse tudo. Com uma enorme simplicidade, mesmo num tempo em que nada mais vai ser simples. Muitas coisas serão difíceis para o mundo inteiro. E não tem a ver com o facto de Trump ter sido um candidato anti-sistema, mas por poder vir a ser um presidente moldado a um sistema e a uma ideologia que premeia o dinheiro e, sobretudo, quem o tem, esquecendo os outros. E os outros, ao contrário do que se quer fazer crer, não são tão poucos quanto isso.

O mundo precisa de homens e mulheres com visão, arrojados, capazes de quebrar com o status quo que nos trouxe até aqui, mas não precisa desta nova forma de fazer política: imprevisível, temperamental e fechada aos sinais do mundo.

Mesmo conhecendo a máxima de que as pessoas se adaptam aos cargos, sobretudo os agentes da política, será difícil acreditar que as pessoas mudem. Oxalá o tempo não nos dê razão.