Por Carmo Rodeia

No próximo dia 27 completa-se um ano desse “gesto planetário” tido pelo Papa Francisco, quando sozinho invocou o mundo numa Praça de São Pedro vazia de pessoas mas cheia de oração, pelas vitimas da pandemia, as que já se conheciam e todas as outras que haveriam  de tornar-se vitimas.

Para assinalar a data haverá um livro que chega às livrarias portuguesas  pela mão da D. Quixote, no próximo dia 24, intitulado “Porque sois tão medrosos? Ainda não tendes fé?”, que recolhe fotografias desse momento e textos do Papa ao longo deste ano, acerca da situação que o mundo está a viver.

O livro, que tem uma introdução de Paolo Ruffini, presidente do Dicastério da Comunicação do Vaticano, como relata em excluivo este domingo o SeteMargens, página online dirigida pelo jornalista António Marujo, pretende resgatar o “humilde poder” da oração.

Devo dizer que ao ler as transcrições do texto de Ruffini me comovi recuperando em passagens esse momento absolutamente impactante que tocou o mundo inteiro pela sua simplicidade mas sobretudo pelas imagens poderosas e dramáticas de um homem só, cambaleante, que através de uma oração uniu o mundo inteiro.

Mas o mais importante de todo aquele momento como lembra Paolo Ruffini “era invisível aos olhos”.

“Na verdade, nunca entenderemos o poder daquele momento utilizando os tradicionais instrumentos de análise. Seria como pensar em entender uma poesia com as regras da métrica”.

E, prossegue: “Vivemos num tempo que nos pode cegar. Um tempo de olhares curtos e míopes, incapazes de ver o essencial das coisas: a dor transfigurada do mundo, a redescoberta da própria fragilidade, a necessidade de olhar além, e de recorrer a Deus”, transcreve o SeteMargens.

De facto, em jornalismo aprendemos que todas as perguntas são possíveis, ao contrário das respostas, que podem não o ser. É o caso. Porque o dia 27 de março foi, como reconhece Ruffini, “um momento misterioso e poderoso do kairos em torno de uma oração simples”. Quase sempre é assim: a simplicidade a sobrepor-se a tudo, porque na simplicidade a verdade é mais transparente.

A oração é sempre  constituída por palavras, mas também por vazios e silêncios. Não é um caminho linear . A própria vida não é assim: é cheia de altos e baixos. Também não tem de ser uma prática antiquada, de frases feitas e temas ultrapassados. Rezar é aprender a ser e, consequentemente, olhar em redor para ver o mundo, como a rã que mergulha dentro de si.

No dia 27 de março, O Papa fez-nos mergulhar dentro de nós, da nossa fragilidade e da nossa condição de criaturas, fazendo com que o verbo rezar atingisse uma outra definição, mais profunda do que aquela que surge nos dicionários. Rezar não é somente dizer orações, preces ou súplicas religiosas. Não é pedir alguma coisa ou agradecer o que se alcançou. É viver, dia-a-dia, aprendendo a ser. Connosco e com os outros. Quando afirmou “ninguém se salva sozinho. Estamos todos no mesmo barco”, foi isso que o Papa nos ensinou. Acredite-se ou não em Deus. E quando faltarem palavras, Deus entenderá…