Pelo Pe Teodoro Medeiros

Um carro chega de noite a Berlim Ocidental e é controlado pelos militares; dentro 2 mulheres, a que conduz e a que tem a cara enfaixada, sobreviveu a um campo de concentração e regressa à sua origem. Todos pensam que morrera na guerra. Ela cantava antes da guerra mas a família morreu toda e ela deverá receber a herança.

É levada a um cirurgião plástico que lhe dá a escolher entre os 2 modelos de cara que são mais populares. Mas ela responde que deseja voltar a ser como era antes. É- lhe dito que isso não será possível. Que deve contar de dez até zero, como no filme “Mulher na Lua”. Ela adormece nos cinco e sonha com Johnnny, imediatamente.

Com uma lupa, as 2 mulheres conferem numa fotografia quem morreu: Johannes Lenz era pianista e a mulher acompanhava-o em público cantando. Lene propõe que se mudem para Haifa, para o novo estado judaico mas Nelly, a sobrevivente ao horror, não está interessada.

Visitam os escombros da sua antiga casa e vemos o seu rosto descoberto pela primeira vez. Dentro do carro, pergunta a Lene se seria capaz de a reconhecer. Mudam-se para uma nova casa. À mesa, ouvem ♫ Speak low, darling, speak low Love is a spark, lost in the dark too soon, too soon ♫.

Nelly sai pelas ruas à noite, e diz a um músico de rua que procura o seu marido. Julga vê-lo mas trata-se afinal de um outro homem que a assalta. No dia seguinte, Lene diz-lhe que o marido a atraiçoara aos nazis; fora libertado, sem acusação, no mesmo dia em que ela fora capturada, a 6 de outubro de 1944.

Nelly volta a procurar o marido à noite e vê-o que trabalha num clube noturno. Ela chama-o e ele ouve a sua voz sem a distinguir, de forma que ela acaba saindo, ainda desconhecida e muito emocionada.

Regressa no dia seguinte, durante o dia, e pensam que procura emprego. É então vista por Johnny que imediatamente a acha muito semelhante à sua esposa e estabelece por isso um plano para ganhar dinheiro. Leva-a para o seu apartamento enquanto lhe explica que a esposa fora pobre em vida mas seria rica agora que estava morta; bastava convencer todos de que era Nelly que tinha regressado.

E assim se estabelece o teatro destas circunstâncias imprevisíveis. Neste filme dramático e envolvente de Christian Petzold, o destino decide-se a contrariar a pouca dignidade que a própria atribui a si. E a busca irracional do amor que a abandonara é substituída pela avaliação silenciosa do que a primeira Nelly representava para o seu marido.

Colaborando na farsa com todo o esmero, a atriz Nina Hoss faz-nos estremecer neste suspense em que, mais do que sabermos com ela, receamos saber mais do que ela. E ainda vamos a meio deste pequeno, despretensioso grande filme; teremos tempo de suspirar, de nos deixar envolver cada vez mais até à robusta apoteose final. Porque a segunda parte, a construção que Johnny faz daquela desconhecida, não conhece pressas.

Temos portanto o cinema enxuto, quase banal nos seus detalhes mas em que o espetador é tomado por emoções várias; são esses detalhes inócuos que abrem janelas para dentro da alma da frágil mulher. Qual será o momento em que se desfaz o engano? Quem engana quem aliás? Porque o lobo não sabe onde está o cordeiro.

 

NB- “Phoenix” é projetado no domingo, dia 22 de Novembro, pelas 15:00, no Centro Cultural e de Congressos de Angra do Heroísmo (inserido no Ciclo “Pensar o mundo” uma parceria do Seminário Episcopal de Angra com a Câmara Municipal de Angra do Heroísmo).