Pelo Pe Jorge Ferreira

Recentemente, a Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos publicou um Decreto em que, por indicação do Santo Padre, é alterada a rubrica do Missal Romano, no que diz respeito à escolha de pessoas para o rito do lava-pés.

Com o gesto do lava-pés aos discípulos, Jesus mostra a lógica do amor e do serviço que guiou a sua vida até à morte na cruz. Este gesto é também referência para um estilo de ser Igreja. A comunidade cristã é convidada a percorrer este mesmo caminho: “Ora, se Eu, o Senhor e o Mestre, vos lavei os pés, também vós deveis lavar os pés uns aos outros” (Jo. 13, 14).

Sabe-se hoje que este rito é conhecido desde os primeiros séculos no Oriente. Tratava-se de um rito pós batismal. A primeira referência que se conhece no Ocidente do rito de lava-pés é no Concílio de Elvira, em Espanha, nos primeiros anos do séc. IV, onde se declara que tal rito deve ser abolido definitivamente da liturgia batismal.

O primeiro testemunho do rito do lava-pés na liturgia papal de Quinta-feira Santa é do Pontifical da Curia Romana do séc. XII-XIII (e do seu antepassado, o Pontifical Romano-Germânico do séc. X, que por sua vez recolhe a pratica do gesto aplicado de modo diverso nas várias dioceses e abadias europeias por volta do séc. VII). Nestes documentos se descreve, com efeito, a lavagem dos pés que o Papa faz aos seus doze diáconos e depois a esse rito foi dada a denominação de Mandatum. Pensa-se que o lava-pés tenha sido de origem monástica. Roma nunca conheceu o lava-pés ligado estritamente com a iniciação batismal.

Esta liturgia passou depois ao Missal Romano de Pio V em 1570, onde era celebrado fora da missa durante a tarde de Quinta-feira Santa. A rubrica deste missal não se preocupa em imitar a cena de Jesus a lavar os pés a doze apóstolos. De facto, a rubrica refere que «depois da desnudação do altar, em hora conveniente, os clérigos reúnem-se para, feito o sinal da cruz, cumprirem o “mandato” (Mandatum). O “mais importante” (bispo) lava os pés aos “mais pequenos” (padres ou diáconos): enxuga e beija…». Esta ação litúrgica era reservada ao clero (“conveniunt clerici”) à luz do Evangelho escutado na Missa da manhã. Não são mencionados “doze”, o que parece fazer pensar que o que conta não é somente fazer uma imitação daquilo que fez Jesus no Cenáculo mas colocar em prática o seu valor exemplar, e sempre atual em favor dos seus discípulos.

Em 1955, o Papa Pio XII reformou o cerimonial da Semana Santa e o gesto de lavar os pés foi inserido dentro da missa a seguir à homilia de Quinta-feira Santa. Agora a rubrica indica que o lavar os pés deve fazer-se a «doze homens escolhidos». Portanto, não se trata de um gesto clerical e a referência a «doze homens escolhidos» torna o rito mais representativo da cena em que Jesus lava os pés aos discípulos. Manifesta, de forma explícita, que se trata de um sinal imitativo, quase de uma representação sagrada, o que ajuda a imprimir na memória aquilo que Jesus realizou na primeira Quinta-feira Santa.

O Missal de Paulo VI em 1962 assume o rito do lava-pés dentro da missa, a seguir à homilia de Quinta-feira Santa. Já não faz referência ao número de doze, mas apenas de «homens escolhidos», faz acompanhar o gesto de várias antífonas que exultam o grande tema da caridade com textos retirados do Evangelho de São João e do Capítulo 13 da Carta aos Coríntios (hino à caridade), e o rito conclui-se com o início do ofertório, com o hino “Ubi caritas est vera”. O lava-pés deve, contudo, ajudar a compreender e a viver melhor o grande e fundamental preceito da caridade fraterna que diz respeito a todos os batizados homens e mulheres.

Atualmente, o decreto da Congregação do Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos indica: «Deste modo os pastores poderão escolher um pequeno grupo de fiéis que sejam representantes da variedade e da unidade de cada porção do povo de Deus. Tal grupo poderá ser constituído por homens e mulheres, e de modo conveniente, por jovens e idosos, pessoas sãs ou doentes, clero, consagrados ou leigos».

O Lava-pés não é obrigatório na Missa in cena Domini. São os pastores a avaliarem a conveniência, segundo as circunstâncias e razões pastorais, de modo a que não se torne quase automático ou artificial, privado de significado e reduzido a um elemento cénico. Por outro lado, não pode tornar-se tão importante de tal modo que centralize toda a atenção da Missa da Ceia do Senhor, celebrada no “dia santíssimo em que Nosso Senhor Jesus Cristo Se entregou por nós” (Communicantes próprio do Cânone Romano).

A mudança atual prevê que sejam designadas pessoas escolhidas entre todos os membros do povo de Deus. Este novo modo refere-se não tanto à imitação exterior daquilo que Jesus fez, mas sim ao significado daquilo que realizou com dimensão universal, isto é, o dar-se “até ao fim” pela salvação do género humano, naquela caridade que abraça a todos e os torna irmãos na prática do seu exemplo.