Pelo padre José Júlio Rocha

Luís Marrano. Nome esquisito. Bem, não era nome nem apelido, era alcunha, que já vinha dos seus antepassados, ali para os lados pedregosos das Beiras, provavelmente por suspeitas de antecedentes judeus.

O Luís nunca teve nada, para além de uma carrada de irmãos que, nos anos cinquenta para sessenta do século passado, partilhavam a pobreza da maior parte dos portugueses. A aldeia natal era um buraco rodeado de montanhas de granito que faziam o sol nascer mais tarde e deitar-se mais cedo. O pai tinha cabras e ovelhas que, nos baldios selvagens daquela terra agreste, pastavam as ervas que lá nasciam. Nenhum dos irmãos foi para os estudos, já se sabe, que quem tem um rebanho de cabras não tem mais nada senão comida para os filhos não morrerem de fome. Fome não havia, mas faltava o resto. Os seis irmãos dormiam em dois quartos, rapazes num, raparigas noutro, sem eletricidade nem água canalizada, sem casa de banho e com um forno a lenha que cozia pão e, nos dias mais festivos, chanfana de cabra velha. Um borreguinho assado pelo Natal.

O Luís casou-se, na casa dos vinte, com a Guidinha, uma moça da aldeia, meio selvagem de cara, meio maria-rapaz, mas bonita, que saltava de pedra em pedra, junto com os rapazes da terra, a espantar os lobos que, de noite, ameaçavam ovelhas e cabras. Um ano depois de casarem, a Guidinha já segurava um menino nos braços. Viviam num casebre, por detrás da casa dos pais dela, uma arrifana transformada em casa pobre, meia dúzia de cabras, três ou quatro ovelhas no estábulo nas traseiras da casa, um poço de água por entre oliveiras antigas.

A meados dos anos sessenta, e quase com quarenta anos, o Marrano já não podia. O filho mais velho ia já com dezassete anos e estava quase a entrar na lista para a Guerra do Ultramar. Claro que o pai não queria ver o filho partir para a África e regressar entre quatro tábuas, como tinha regressado o filho do Joaquim Fagote, desfeito por uma mina.

Numa noite difícil, confessou à mulher que o melhor era ele e o filho partirem para França, deixando-a com os dois mais novos, que o dinheiro havia de chegar mais abundante. Lágrimas e silêncio. Numa noite fria de primavera, Luís e o filho atravessaram clandestinamente a fronteira. Chegaram a França, arredores de Paris, onde havia gente da sua terra. Paris, cidade-luz! Paris dos românticos e dos artistas, Paris da Torre Eiffel e do Louvre, Paris do dinheiro a correr e dos palácios mais belos. E, no entanto, Luís Marrano foi parar a um “bidonville”, onde dezenas de milhares de portugueses haviam de passar os seus dias.

Os “bidonvilles” franceses, os dos arredores de Paris, eram bairros de lata imundos, sem água nem luz, sem saneamento nem nada que se parecesse digno de um ser humano. Aí dormiam as empregadas de limpeza e os trabalhadores da construção civil portugueses, uma vida razoavelmente miserável, alimentada por um sonho: angariar dinheiro o mais possível para regressar, construir uma casa estilo “maison”, com janelas “a la fenêtre” nas aldeias natais e poder viver o resto dos seus dias no remanso das suas terras, sem a angústia da pobreza.

O emigrante é sempre um estrangeiro. Quem emigra já sabe que deixa de ter pátria, terra sua, cidadania plena. Na diáspora não passam de imigrantes, incómodos e usurpadores de emprego, com o estigma sempre segregador de não pertencerem de pleno direito ao lugar onde vivem. Na terra de origem são moscas de verão ou “calafonas”, gozados pelo seu sotaque americanado ou afrancesado (os “estoas”, os “avecs”), que vêm mostrar à gente a extravagância das suas roupas, penteados e carros. O migrante não tem pátria que o ame.

E, no entanto, ninguém ama mais a sua terra do que o emigrante. Nós, os dos Açores, onde há mais gente fora do que dentro, sabemos que a palavra “saudade”, na plenitude da sua semântica, é prerrogativa dos nossos emigrantes.

A primeira vez que fui à Califórnia vim de lá feito num oito. Levavam-me ao colo. Abraçavam-me, choravam-me as saudades da terra, não tive tempo para mais nada a não ser abraços, jantares, lágrimas e um amor imenso que a distância acrescentava. Cheguei a dedilhar com os meus primos da América, num violão, o “Verde Vinho”, cujo refrão começa com “vamos brindar” e que, a meio, diz assim: “Falou-me então daquele dia triste, o velho Luís, em que deixara tudo quanto existe, p’ró fazer feliz: a noiva, a mãe, a casa, o pai e o cão também.”

Pois o velho Luís, o Marrano, regressou à terra dez ou onze anos depois, já a cadeira tinha dado cabo de Salazar e Salgueiro Maia tinha aberto os braços na Rua do Arsenal. Já o filho não tinha de ir combater e já a casa estilo “maison” estava nos acabamentos do telhado. O velho Luís morreu há mais de dez anos, só com a mulher, na larga “maison”, porque os filhos e os netos preferiram a cidade às Beiras. “Para que serviu trabalhar tanto?”, diz ele, no seu triste envelhecer. “O dinheiro não traz nada. Trabalhei como um mouro e acabo sozinho com a minha mulher”. Mais um sonho ao encontro das pedras. Nós só choramos o amor e o carinho que perdemos.

Os “bidonvilles” de França, dos portugueses de França, foram lugares onde o sofrimento e as lágrimas só tinham contrapeso na imensa esperança de voltar à pátria amada.

Um emigrante – e eu também já o fui, cinco anos em Roma – nunca tem o coração no seu lugar. Talvez por ser grande demais.

Este artigo foi publicado na edição desta sexta-feira do diário Insular, na rubrica Rua do Palácio.