Em dois anos Francisco conquistou, converteu e encantou inúmeras pessoas. Mas a oposição na Igreja começa a crescer, especialmente protagonizada pelos sectores mais conservadores

Dois anos depois da eleição, Francisco, o primeiro papa vindo do hemisfério sul, continua a cativar pela simplicidade e proximidade, suscita entusiasmo ou curiosidade, mas  simultaneamente começa a criar oposições crescentes na Igreja.

Jorge Mario Bergoglio, que foi eleito papa a 13 de março de 2013 e escolheu o nome Francisco, “o que encerra desde logo um programa de pontificado”, destacou-se pelos gestos espontâneos, sejam eles uma oração junto ao muro de separação entre Israel e os territórios palestinianos ou em encontros com doentes e deficientes.

Dois desafios difíceis mantêm-se no horizonte do papa após dois anos de pontificado: a reforma da Cúria Romana e a resposta da Igreja aos desafios da família católica num mundo moderno e em plena mutação.

O princípio da reforma da Cúria – modernização, fusão dos serviços, transparência – é uma das questões mais prementes da agenda herdada por Francisco de Bento XVI. O escândalo do Banco do Vaticano ou os casos de pedofilia nos corredores do Vaticano impunham uma ação imediata do novo  sucessor de Pedro.

O segundo desafio, a família, apresenta ainda mais riscos para este papa popular, que tem cerca de 19 milhões de seguidores na rede social ‘Twitter’ e parece ser mais apreciado fora do aparelho da Igreja que no coração da instituição. Aliás, entre os líderes mundiais é, sem dúvida, o mais popular.

 

Francisco, de 78 anos, convocou dois sínodos (assembleias de bispos), um realizado em outubro de 2014 e outro está marcado para outubro deste ano, para debater temas delicados como o lugar dos divorciados que voltaram a casar ou dos homossexuais na Igreja Católica.

No sínodo do ano passado ficaram claras as divisões sobre como a Igreja deve enfrentar atualmente os desafios, em especial a situação dos divorciados recasados. Na altura, o papa definiu estes católicos como “excomungados de facto”, devido a todas as ações de que são excluídos pela Igreja.

Depois da decisão dos bispos, que deverá ser conhecida no próximo sínodo, a palavra final cabe ao papa e os olhos estão postos na exortação pós sinodal que será conhecida em janeiro ou fevereiro de 2016.

Numa entrevista ao jornal La Nacion, em dezembro, Francisco admitiu que “as resistências são evidentes”.

“Mas para mim é bom sinal que sejam evidentes, que não falem às escondidas quando não se está de acordo. É saudável falar das coisas, é muito saudável”, disse.

“A reforma espiritual, a reforma do coração” é a que preocupa Francisco, o que deixou evidente com as críticas sobre “as 15 doenças” que ameaçam a Cúria, como a mundanidade, a corrupção, o afastamento da realidade.

O papa denunciou “o Alzheimer espiritual” e a “fossilização mental”, que ameaçam o alto clero, e pediu aos teólogos que “deixem de ver a humanidade da sua torre de marfim”, e sintam “o cheiro do povo e da rua”.

Particularmente eloquente quando denuncia o tráfico de seres humanos e as guerras inter-religiosas, Francisco é radical no plano socioeconómico e não se afasta do essencial em matéria moral (a família, a vida), sem ser dogmático.

Para o vaticanista Marco Politi, existe um “conflito aberto” no Vaticano sobre questões sérias. A novidade é que as divergências surgiram publicamente, o que não acontecia com outros papas.

 

Sobre a reforma da Cúria, Politi elogiou a intuição de Francisco, de que o processo devia ter a contribuição de cardeais de todo o mundo.

“Outros papas teriam constituído uma comissão que trabalharia em silêncio, durante três ou quatro meses e produziriam um texto”, disse. No entanto, a lentidão do processo “aumenta a incerteza e a desorientação”.

O papa acredita que a humanidade contemporânea vive um drama existencial e que a Igreja deve manter-se próxima e falar para uma sociedade plural.

“Francisco é muito exigente, mas confia muito na força da persuasão. Nisso parece-se muito com Bento XVI, que queria convencer, levar pessoas e estruturas à conversão. A novidade é a grande liberdade de discussão”, afirmou Politi.

Ainda esta semana, Francisco desafiou os teólogos católicos a prosseguir a “renovação” promovida pelo Concílio Vaticano II (1962-1965), propondo uma reflexão atenta à realidade e às “fronteiras” da sociedade.

“O Concílio Vaticano II representou uma atualização, uma releitura do Evangelho na perspetiva da cultura contemporânea. Produziu um movimento irreversível de renovação que vem do Evangelho e agora é preciso avançar”, diz Francisco sublinhando a importância do Evangelho se encontrar com as necessidades das pessoas, de forma “compreensível e significativa”.

Francisco pede que o lugar das reflexões teológicas sejam “as fronteiras”, com teólogos que “cheirem ao povo e à rua” e não “burocratas do sagrado”.

“Que a Teologia seja expressão de uma Igreja que é ‘hospital de campanha’, que vive a sua missão de salvação e de cura no mundo”, prosseguiu.

CR/Lusa/Observador