Por Carmo Rodeia

O título é naturalmente irónico e vem a propósito do Brasil ter rejeitado 20 milhões do G7 para a Amazónia, porque o chefe de estado brasileiro considerou que essa oferta tem por detrás outros interesses, eventualmente colonialistas, por parte das grandes potências mundiais,  porque nenhum rico apoia um pobre se não tiver interesse. No fundo, Jair Bolsonaro faz tábua rasa do velho ditado lusitano “quando a esmola é muita o pobre desconfia”.

Quero aqui dizer, já de inicio, que não alinho em visões maniqueistas da vida: de um lado os bons e, do outro, os maus. Também quero dizer que se fosse brasileira não teria votado em Bolsonaro. E já agora acrescento que não o teria feito porque não concordo com a maioria das posições políticas dele. Mas ganhou as eleições e é o presidente legítimo do Brasil, ainda que muitos considerem que essa legitimidade está beliscada por uma série de incidentes que não conheço nem domino e por isso fico-me pelo resultado eleitoral que lhe deu a vitória nas urnas. Para o bem ou para o mal, o homem é o presidente do Brasil, escolhido por uns quantos brasileiros, mais ou menos esclarecidos, mas que votaram nele e qualquer tentativa externa para impor ou determinar uma nova ordem será sempre inadimissivel.

Feita esta declaração de princípio, e não de interesses, vamos ao que interessa.

O chefe de Estado francês, Emmanuel Macron, anunciou na segunda-feira que o G7 forneceria uma ajuda imediata de 20 milhões de euros para combater o incêndio na maior floresta tropical do mundo.

Mas o Brasil “é uma nação democrática, livre e nunca teve práticas colonialistas e imperialistas como talvez seja o objetivo do francês Macron”, respondeu uma voz do Palácio do Planalto, em Brasília, rejeitando a oferta.

A Amazónia é a maior floresta tropical do mundo  e possui a maior biodiversidade registada numa área do planeta. Tem cerca de 5,5 milhões de quilómetros quadrados e inclui territórios do Brasil, Peru, Colômbia, Venezuela, Equador, Bolívia, Guiana, Suriname e Guiana Francesa (pertencente à França).

Deixo apenas alguns números que nos mostram a importância deste ecossistema do planeta, tão importante para a nossa sobrevivência: detém cerca de 10% de toda a biodiversidade do mundo, contribui anualmente para 20% de toda a água doce que entra nos oceanos e absorve cerca de 8% de todo o dióxido de carbono (CO2) que a humanidade emite para a atmosfera com a queima de combustíveis fósseis e desmatamentos.

O número de incêndios no Brasil aumentou 83% este ano, em comparação com o período homólogo de 2018, com 72.953 focos registados até 19 de Agosto, sendo a Amazónia a região mais afectada.

Estamos perante um problema que sendo primeiramente brasileiro, porque a maior parte da Amazónia atravessa o país e ninguém põe ou pôs isso em causa, é também de todos nós. Do mundo inteiro. Do planeta Terra, pois estamos a falar do futuro da maior floresta húmida do mundo e das consequências da sua destruição para a humanidade e para as gerações futuras.

Será que estou a ser também eu colonialista, achando que a destruição da Amazónia- que é feita não apenas pelos incêndios, mas pela constante desflorestação, alterações climáticas e falta de investimento na área- é um problema meu e nosso?

Ou esta é, porventura uma leitura muito marxista da realidade, segundo o léxico do poder brasileiro, que ainda há bem pouco tempo depois do Presidente dos Estados Unidos ter abandonado o acordo de Paris sobre o clima invocando que as alterações climáticas eram uma invenção dos chineses, afirmou- um dos ministros de Bolsonaro- que as alterações climáticas eram um dogma marxista…

Agora a sério: o Brasil é demasiado importante para ficar refém de um poder de vistas curtas. Todos sabemos no que degeneraram as teorias do orgulhosamente sós. O atraso e o subdesenvolvimento que isso trouxe às populações e como o bem comum ficou mirrado diante de poderes autoritários mais preocupados com questões da sua própria sobrevivência do que propriamente com a qualidade de vida do seu povo.

A celeridade com que Bolsonaro integrou militares nas escolas publicas, para ensinarem boas maneiras (importantes!) aos jovens e crianças oriundas das favelas, não foi igual à utilizada no envio de militares para combater os fogos.  Não sei se por falta de meios ou de vontade. A verdade é que a Amazónia continua a arder e isso põe em causa o nosso futuro e o dos nossos descentes a quem andamos a dizer, citando Barack Obama, que nasceram num mundo em que a humanidade seria finalmente comum…

O problema da Amazónia é de todos e, se queremos ajudar, o poder atual no Brasil não tem o direito de declinar a ajuda, só porque sim.