Por Carmo Rodeia

A Europa vive por esta altura um dos maiores impasses de sempre: o referendo sobre a permanência ou a saída do Reino Unido da União faz tremer os políticos e ensombra os resultados económicos e financeiros de um velho continente à deriva. Afinal, no dia 23 os ingleses vão decidir mais do que a saída ou a permanência do país nesta União a 28; é o destino da própria Europa que se joga no referendo britânico.

No dia em que foi retomada a campanha depois do luto imposto pelo assassinato de uma deputada inglesa europeísta, cidadãos franceses, italianos e alemães manifestaram-se na praça pública formando uma “corrente de beijos” enviada aos britânicos.

Em Paris, em Roma e em Berlim milhares de pessoas, firmemente convencidas e focadas no poder mágico de um beijo, quiseram manifestar aos britânicos que mais do que o ódio, o medo ou a insegurança, devem sentir-se unidos à Europa, fazendo lembrar aquela canção que venceu o festival da Eurovisão de 1976, “Save a Kiss for us”, protagonizada justamente pela banda britânica Brotherhood of Man.

Aliás, na campanha contra o Brexit surgiu um mural que chamou a atenção do mundo. O mural mostra um beijo entre o candidato republicano às presidenciais dos EUA, Donald Trump, que tem desvalorizado o eventual impacto do Brexit, e Boris Johnson, antigo mayor de Londres, que recentemente comparava o “super-estado” do projeto europeu à Alemanha de Hitler.

O mural foi pintado por membros do grupo We Are Europe, que se opõem à saída do Reino Unido e surgiu, como dá conta a BBC, em Bristol, zona onde há anos começaram a aparecer as primeiras obras do icónico (e ainda de identidade desconhecida) Banksy.

O mural do ‘beijo’ faz referência à célebre fotografia, de 1979, do então líder soviético Leonid Brejnev e do dirigente da antiga República Democrática Alemã Erich Honecker, entre outras preciosidades históricas.

A história da relação entre o Reino Unido e a União Europeia tem sido pautada por encontros e desencontros. E, neste “combate” ninguém sabe, em bom rigor, qual vai ser o saldo.

A relação foi sempre difícil. Mas nunca como hoje, o destino das ilhas e do continente esteve de tal modo interligado. A história pesa no discernimento dos britânicos. E torna-se o derradeiro argumento de David Cameron, com um dramatismo que equivale ao que está em jogo: quase tudo.

A União Europeia, hoje, é uma realidade atípica e descaracterizada bem longe do modelo idealizado pelos seus fundadores; mas mesmo assim é a melhor de todas as realidades possíveis.

Numa época em que as palavras “Europa” e “crise” são colocadas no mesmo plano, rapidamente esquecemos o que a Europa já conseguiu construir e aquilo que ainda é capaz de ser: um projeto alicerçado na paz e na humanidade. Renegamos o belicismo, o desejo de destruição e a desumanidade que caracterizaram a primeira metade do século XX. Unimos forças a favor de um espaço onde não houvesse vitoriosos nem derrotados mas apenas vencedores.

A alma da Europa reside nos seus valores. Quando o Papa Francisco nos recorda que uma Europa que cuida, defende e protege cada ser humano é um ponto de referência valioso para toda a Humanidade, está a lembrar-nos, a nós Europeus, estes valores. A visita do Papa Francisco a Lesbos foi mais do que um gesto simbólico.

O Papa acolheu doze refugiados sírios, agindo assim de forma mais concreta e mais solidária do que muitos Estados-Membros da UE. Ao fazê-lo, apelou-nos a agir. Está em jogo o nosso modelo social europeu, que assenta na democracia, no Estado de direito, na solidariedade e nos direitos humanos. Na Europa respeitamos os direitos civis, a liberdade de imprensa e o direito à greve, não praticamos a tortura nem permitimos a pena de morte.

Solidariedade e amor ao próximo não são mera retórica de conveniência: são valores que, para tal, têm de ser vividos. E celebrados… nem que seja com beijos.