Entrámos num novo ano com expetativas redobradas de vivermos um ano novo, o que deveria significar uma vida nova.

2014 foi um ano mau para um número significativo de portugueses que têm uma vida pior do que tinham. Muitos foram forçados a emigrar e outros a viver da caridade.

Os estilhaços da crise, apesar de alguns, poucos, anunciarem que as nuvens negras já passaram, estão bem presentes e transformaram-se em feridas sociais que dificilmente serão saradas nos tempos mais próximos.

É cruel entender a economia como um jogo em que para uns viverem bem outros têm, necessariamente, de viver mal. Infelizmente, alguns, demasiados, acreditam nessa ideia. E o pior é que, acreditando nela, utilizam todos os instrumentos ao seu alcance para a por em prática.

Por isso, o desafio para 2015, o ano novo, talvez seja justamente esse: regressar à ideia base do bem comum. Tomar como prioridade a inversão da tendência dos últimos anos: a economia deve estar ao serviço das pessoas e os recursos disponíveis devem ser utilizados para a promoção do bem estar da generalidade dos portugueses.

Será tão difícil, assim, passarmos alguns minutos do dia a pensar menos em economia e mais nas pessoas?

O vocalista do U2, Bono Vox, esta semana disse que “o capitalismo é amoral”, nem coisa boa nem coisa má; é apenas o que cada um pode fazer dentro das leis do mercado. O problema é que quase tudo se pode fazer dentro dessas leis, menos defender direitos sociais ou evitar a estigmatização dos mais pobres.

Em 2015 deveríamos, portanto, regressar a uma sociedade que compreenda e defenda os direitos sociais dos que têm menos; o direito à igualdade para além da igualdade de oportunidades. Ou, o simples direito à inclusão que só se garante com um mínimo de condições que vão do rendimento, à habitação passando pela saúde e educação.

Neste ano que agora é novo, predestinado a ser um ano atípico pela conjuntura política- eleições legislativas-, pela ressaca da crise- que ainda não passou e pelos estragos sociais que provocou- e que ainda vão permanecer por longos anos, seria bom que olhássemos para a mensagem de força e determinação que nos é dada pelos Magos, que há mais de dois mil anos viajaram do oriente.

Também eles foram tentados a rejeitar a pequenez que encontraram em Belém, mas conseguiram resistir, acreditando mais na bondade de Deus do que no brilho aparente do poder instalado de Herodes.

Com eles aprendemos a lição da convicção, da firmeza dos propósitos e da esperança, que não se rende perante as dificuldades ou a adversidade. Eles transformam o caminho na única alternativa: acreditam que nasceu um salvador, e partem ao seu encontro.

O Papa, esta terça feira, apresentou o relato evangélico dos Magos como uma “viagem da alma, um caminho de encontro com Cristo” e pediu que, como estas figuras, os católicos sejam “atentos, incansáveis e corajosos” a seguir os sinais que levam até Deus, que é como quem diz, aos mais fracos.

Será que somos capazes de fazer isso, apesar de tudo? Convoco Vergílio Ferreira para lembrar que “o importante não é o que acontece, mas o que acontece em nós desse acontecer”. Que os Magos nos alentem em 2015.