Padre José Júlio Rocha desafia cristãos a viver uma santidade de coração nómada

Na XXV Conversa na Sacristia, em São José, Ponta Delgada, o vigário episcopal para o Clero defendeu que o verdadeiro modelo de santidade para o século XXI não está ligado ao poder, à riqueza ou ao prestígio, mas à capacidade de sair de si próprio para se dar aos outros

Foto: Pastoral da Cultura de São José

A santidade do século XXI passa por um coração livre, desapegado e disponível para os outros, afirmou o padre José Júlio Rocha, vigário episcopal para o Clero e doutorado em Teologia Moral, na XXV edição das Conversas na Sacristia, promovida pela Pastoral da Cultura da paróquia de São José, esta quinta-feira.

“A Igreja tem muitos modelos de santidade ao longo da história, mas o que é comum a todos é sair de si para se dar ao outro”, enfatizou lembrando a Carta de São Paulo aos Efésios, que fala da maior alegria de todas que é dar.

Para o sacerdote, a diferença entre um santo e um pecador é frequentemente mais subtil do que se imagina. O que distingue verdadeiramente os santos é o desejo constante de ultrapassar o próprio egoísmo e colocar a vida ao serviço dos outros.

“O fio condutor que atravessa todos os modelos de santidade na Igreja é este desejo, este ímpeto de sair de si”, reforçou.

Na sua intervenção, o padre José Júlio Rocha explicou que a história da Igreja conheceu diferentes modelos de santidade, quase sempre em resposta aos desafios de cada época.

Nos primeiros três séculos, quando os cristãos eram perseguidos pelo Império Romano, o grande ideal de santidade era o mártir. Dar a vida pela fé era o testemunho supremo. A Igreja, sem poder político e frequentemente na clandestinidade, via nos mártires os seus maiores exemplos.

Com o fim das perseguições e a aproximação da Igreja ao poder, surgiu um novo ideal: os Padres do Deserto. A santidade passou a ser procurada através da oração, da ascese e do afastamento do mundo, numa busca radical de Deus.

Com São Bento e o ideal do ora et labora, a santidade encontrou expressão na vida comunitária, no trabalho e na oração. Paralelamente, surgiram os “confessores”, homens santos procurados como guias espirituais e conselheiros.

Perante uma Igreja cada vez mais rica e poderosa, apareceram as ordens mendicantes, sobretudo os franciscanos e dominicanos. São Francisco de Assis tornou-se o grande símbolo da pobreza evangélica, da simplicidade e do desapego.

Com os Descobrimentos e a expansão do cristianismo, o missionário tornou-se o novo modelo de santidade. Sair da própria terra para anunciar o Evangelho e servir outros povos passou a ser um ideal marcante.

Ao mesmo tempo, floresceu a santidade contemplativa, representada por figuras como Santa Teresa de Ávila e São João da Cruz. A união profunda com Deus através da oração tornou-se outro caminho privilegiado.

A Revolução Industrial e as novas formas de pobreza fizeram surgir santos dedicados à educação, à promoção humana e ao cuidado dos mais vulneráveis, como São João Bosco.

Segundo o padre José Júlio Rocha, o Papa Francisco ajudou a definir um novo horizonte: uma Igreja em saída, servidora e próxima das periferias humanas. Por isso, o santo é aquele que abandona o comodismo para ir ao encontro dos outros.

Segundo explicou, a Igreja propõe Carlo Acutis como testemunha de uma fé profundamente eucarística e como alguém que soube utilizar os meios digitais para evangelizar, mas a santidade contemporânea não pode ficar reduzida a um único perfil.

“A canonização de Carlo Acutis não foi uma ação de propaganda da Igreja para atrair jovens. É um santo da Eucaristia, demasiado jovem, como Santa Jacinta ou São Francisco Marto. São santos que iluminam um caminho, mas não sei se encerram ideais de santidade para os cristãos hoje porque são crianças” sublinhou.

Recorrendo à imagem da mochila, presente no tema da conferência, o sacerdote desenvolveu a ideia de que a santidade implica uma atitude permanente de desapego e disponibilidade.

“A mochila significa nomadismo: não tenho um ninho, uma casa, uma morada permanente neste mundo” recordou.

Foi precisamente este “nomadismo” que identificou como característica comum aos maiores santos da história da Igreja e ao próprio Jesus Cristo.

Numa das passagens mais marcantes da conversa, o sacerdote, que é coordenador da equipa sinodal da Diocese de Angra, alertou para os perigos de uma sociedade centrada no consumo, na acumulação e no individualismo, defendendo que tudo o que é verdadeiramente santo se opõe a essa lógica.

“Tudo o que é santo vai contra o sedentarismo, o ter, aquilo que representa uma sociedade de consumo instalada e virada para o individualismo. Essa é a marca válida para o início dos tempos, em que a santidade era declarada pelo povo – santo súbito, – como o foi no caso de São Pedro, São Paulo, Santo Inácio de Antioquia e que se mantém atual hoje, quando a santidade é declarada pela Igreja, com menos erros e mais acerto”, referiu.

Por isso, conclui: “Os santos jovens, crianças, como Acutis, São Francisco e Santa Jacinta Marto inspiram-nos e iluminam o caminho, mas até que ponto são efetivamente exemplos desta santidade que acabei de mencionar, de uma vida inteira gasta pelo outro? Tocam os jovens sobretudo e isso é bom, mas a característica mais importante a meu ver é terem um coração disponível para Deus e para o outro, embora na sua curta história de vida”.

Foto: Pastoral da Cultura de São José

A reflexão do sacerdote ganhou igualmente um forte tom eclesial quando abordou a relação entre santidade e poder. Inspirando-se no pontificado do Papa Francisco, o vigário episcopal para o Clero defendeu uma Igreja mais pobre, mais servidora e menos clerical.

Para o padre José Júlio Rocha, o clericalismo continua a ser um dos maiores obstáculos à renovação das comunidades cristãs, porque retira protagonismo aos leigos e transforma a missão da Igreja numa lógica de dependência.

A encerrar a reflexão, o sacerdote sintetizou em poucas palavras aquilo que considera ser o núcleo da santidade cristã, ontem como hoje:

“O cristianismo convida-nos a manter o nosso coração nómada. Só Deus mora no nosso coração”, concluiu.

A XXV Conversa na Sacristia confirmou, uma vez mais, a vocação desta iniciativa da Pastoral da Cultura de São José como espaço de reflexão, diálogo e pensamento aberto à comunidade, reunindo fé, cultura e debate em torno dos grandes desafios do mundo contemporâneo.

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