“Não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo” – Leão XIV

O Papa alertou hoje em Metz contra a “ilusão do rearmamento” na Europa, apelando à construção ativa da paz num continente que enfrenta de novo um cenário de conflito generalizado.
“Hoje em dia, as relações humanas e as relações entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras”, lamentou Leão XIV, no encontro ‘Nas raízes da Europa pela paz e pela unidade’, junto de responsáveis políticos e religiosos.
O pontífice desafiou os líderes europeus a trabalhar “em prol da paz e de um mundo reconciliado”.
“O direito internacional e o multilateralismo sublinham a igualdade efetiva dos Estados nas suas relações mútuas e constituem o melhor antídoto contra a vontade de dominar que está na origem de cada disputa”, sustentou.
A intervenção advertiu que os repetidos apelos ao aumento das despesas militares “são apresentados por muitos governantes com a justificativa da periculosidade alheia”.
“Hoje, é preciso perguntar-nos se estamos realmente a envidar esforços criativos para promover a paz mundial ou se estamos simplesmente a tentar conter a hemorragia da guerra”, questionou Leão XIV no Centro de Congressos Robert Schuman.
O discurso aludiu ainda ao drama migratório, com o Papa a evocar a chegada ao continente europeu de “tantos homens e mulheres que fogem de zonas de guerra e perseguição ou que procuram uma vida melhor longe da pobreza e da miséria”.
“É preciso compreender o alcance histórico do que está a acontecer, ou seja, um encontro sem precedentes entre povos e culturas, que apela a uma redescoberta criativa das nossas raízes e, ao mesmo tempo, a uma escuta atenta do outro”, defendeu o Papa, com antepassados no território francês.
A reflexão evocou o legado dos construtores da paz no pós-II Guerra Mundial, elogiando Robert Schuman (1866-1963), um dos fundadores da União Europeia, que “contribuiu para lançar as bases de uma Europa consciente da urgência de derrubar os muros que a dilaceravam”.
O pontífice destacou o estadista franco-luxemburguês como um exemplo de empenho na paz perante “fronteiras em constante evolução”.
“Antes mesmo de ser uma realidade geográfica, a Europa entende-se como uma realidade cultural e histórica. Ao longo dos séculos, ela foi adquirindo novos contornos e definições, passando por períodos de crescimento, crises profundas e novos renascimentos”, observou.
Alcide De Gasperi (1881-1954), outro “pai fundador da Europa” contemporânea, foi também citado por ter sublinhado a “moral unitária que exalta a figura e a responsabilidade da pessoa humana”.
A herança espiritual do continente mereceu destaque através da figura de São Bento (480-547), padroeiro da Europa, com Leão XIV a afirmar que “sem estes fundamentos monásticos, a civilização europeia tal como a conhecemos não existiria”.
“Não é possível falar da Europa sem fazer referência ao cristianismo”, insistiu.
A referência à dívida da cultura europeia para com o cristianismo permite compreender melhor até que ponto a abertura ao transcendente é sempre uma dimensão constitutiva da pessoa humana e uma fonte viva de civilização.”
O Papa abordou a questão das relações Igreja-Estado, sustentando que a laicidade “não implica apenas o caráter não confessional das instituições civis, mas pressupõe uma verdadeira colaboração entre as partes, bem como o respeito pela autonomia das Igrejas”.
O discurso concluiu-se com um apelo às novas gerações: “Tende a coragem de viver com responsabilidade a missão de construir a paz no vosso coração, nas vossas relações, na vossa família, nas escolas e nas universidades, na vida das vossas cidades, dos vossos países e de toda a Europa”.
“Não vos submetais à lógica da violência e da opressão”, acrescentou Leão XIV.
A sessão no auditório contou com intervenções do presidente da República Francesa, Emmanuel Macron, e do cardeal Jean-Marc Aveline, presidente da conferência episcopal francesa.
Entre os participantes estiveram o príncipe Alberto II do Mónaco, o grão-duque e o primeiro-ministro do Luxemburgo, o bispo de Urgell e copríncipe de Andorra, e a presidente da região alemã do Sarre.
Líderes religiosos assinam “Apelo de Metz” perante o Papa e rejeitam “veneno do totalitarismo”
Os responsáveis das diferentes confissões religiosas em França assinaram o ‘Apelo de Metz’ perante o Papa Leão XIV, alertando que a humanidade se encontra num “novo ponto de viragem” devido à multiplicação das guerras.
“Opomo-nos muito particularmente ao veneno do totalitarismo do qual esta terra da Lorena tanto padeceu”, advertem os líderes cristãos, judeus e muçulmanos no documento conjunto, evocando as experiências da II Guerra Mundial.
A declaração inter-religiosa foi proclamada no Centro de Congressos Robert Schuman, reunindo figuras como o presidente da Federação Protestante de França, Christian Krieger, o grão-rabino Haïm Korsia, o reitor da Grande Mesquita de Paris, Chems-Eddine Hafiz e Anthony Boussemart, da União Budista.
Os signatários rejeitam a resignação perante os “poderes opressivos ou corruptos” e assumem que as diferentes fés detêm uma “responsabilidade particular na edificação e manutenção da paz no mundo”.
“O nome de Deus, tal como nenhuma verdade religiosa ou tradição espiritual, pode jamais ser invocado para justificar a violência e o ódio”, sublinha o manifesto, assinado pelo cardeal Jean-Marc Aveline, presidente da Conferência Episcopal Francesa em nome da Igreja Católica.
O texto manifesta “indignação” perante o recrudescimento de atos criminosos contra pessoas e locais de culto em solo francês, condenando “todas as formas de discriminação e todos os discursos de ódio”.
A declaração adverte que a pacificação “não se reduz à ausência de guerra” e exige a presença estrutural de justiça, de respeito pela dignidade humana e de solidariedade efetiva entre as gerações.
“Constatamos com gravidade que as nossas próprias sociedades não são poupadas a fraturas, discriminações e lógicas de rejeição que fragilizam a coesão entre as pessoas e os povos”, indicam os signatários.
Os líderes religiosos exigem a recusa das lógicas “de vingança, de rejeição e de humilhação” ligadas às feridas da História, apelando ao desenvolvimento de uma verdadeira “cultura de acolhimento e de fraternidade”.
O manifesto culminou na adoção de três compromissos práticos perante o Papa: prosseguir um diálogo assíduo e exigente, formar as jovens gerações no conhecimento mútuo das várias tradições e atuar de forma unida perante a adversidade.
“Nenhuma paz duradoura se constrói sem o outro, nem contra o outro”, remata o apelo.
A declaração é uma iniciativa da Conferência de Responsáveis do Culto de França (CRCF), organismo criado em 2010 que reúne representantes, das Igrejas cristãs (católica, ortodoxa e protestante), do budismo, do islamismo e do judaísmo.

Última paragem de Leão XIV
No final da visita, na Missa na Catedral de Metz, o sumo pontífice apelou à superação da lógica de vingança, evocando a história dos recentes conflitos na Europa.
“Metz e Mosela mostram ao mundo inteiro que a reconciliação só é possível quando se tem a coragem de quebrar a cadeia do ressentimento”, declarou o pontífice, numa região marcada pelas guerras do século XIX e XX, bem como pela reconciliação franco-alemã.
Junto à fronteira com a Alemanha e o Luxemburgo, no nordeste da França, o pontífice rejeitou as lógicas “impiedosas” de retaliação.
“Não é verdade que quem não cede é mais forte do que quem procura a reconciliação. Não é verdade que quem se vai embora batendo a porta é mais forte do que quem se esforça por caminhar em conjunto”, disse, na homilia da Missa conclusiva, a que presidiu na Catedral de Santo Estêvão.
Leão XIV referiu que a salvação humana reside no amor que “cuida do outro e que procura dar confiança independentemente das circunstâncias, mesmo perante os comportamentos mais difíceis de aceitar”.
“Num mundo marcado pelos limites, a concórdia só se constrói na caridade, que sabe partilhar alegrias e dores, encorajar e perdoar, sem cálculos nem limites, tal como numa família”, acrescentou.
A reflexão evocou os “fundamentos morais” do continente europeu, vindos da tradição cristã.
“Princípios como a primazia da pessoa e o caráter sagrado e inviolável da vida humana, em todas as suas fases e em todas as circunstâncias; a defesa da liberdade dos indivíduos; a importância primordial da família como fundamento da sociedade; a atenção aos pobres e mais necessitados; o acolhimento do estrangeiro e o respeito pelos idosos”, elencou o Papa.
Leão XIV chegou ao templo após um percurso em veículo aberto pelas ruas de Metz, acompanhado por dezenas de milhares de pessoas.
A Missa pela paz na Catedral de Santo Estêvão, conhecida pelos vitrais como a “Lanterne du Bon Dieu”, constituiu o último ato público da viagem à França, iniciada na sexta-feira.
Leão XIV apontou os vitrais desenhados pelo pintor judeu Marc Chagall para a catedral católica como um “extraordinário símbolo ecuménico e de diálogo inter-religioso”.
“O futuro da Europa não reside na uniformidade, mas na harmonia das diferenças, onde a ferida do passado se torna uma fresta por onde a luz pode entrar”, assinalou.
Esta Catedral diz-nos que a luz do Senhor não apaga as especificidades, mas une histórias e culturas diversas num único e maravilhoso mosaico de paz, necessário à nossa época, dilacerada por novas divisões e novos conflitos.”
A cerimónia oficial de despedida do território francês rumo a Roma decorre ao final da tarde no Aeroporto de Metz-Nancy-Lorraine.
(Com Ecclesia/Lusa e Vatican media)