Pela primeira vez, Irmãs do Bom Pastor serão as anfitriãs dos peregrinos, que participarão nas festas do Senhor Santo Cristo dos Milagres, de 20 a 26 de maio

No Campo de São Francisco o perfume da festa já contagia quem por lá passa. A azáfama da montagem das luzes e dos alindamentos em volta da praça, assinalam o regresso de uma festa interrompida durante dois anos pela pandemia. Dentro do convento, as Irmãs do Bom Pastor, recém chegadas a esta casa, ambientam-se ao movimento a que não estavam habituadas e sobretudo aos ritmos que fogem ao silêncio e à oração a que são chamadas diariamente pelo seu carisma.

“Às vezes, quando saímos até parece que ganhámos uma nova identidade” refere a religiosa Jaqueline Mendes, responsável da comunidade que desde o final do ano passado reside no Convento da Esperança.

“Somos interpeladas na rua e perguntam-nos: são as irmãs do Santo Cristo, não é verdade? Isso é muito bonito porque as pessoas, apesar de cá estarmos há muito pouco tempo, já nos reconhecem e isto tem a ver com a devoção que estas pessoas têm ao Senhor Santo Cristo”.

“Sinceramente nunca pensei vir para cá, para uma ilha e à noite, quando no silêncio da minha oração contemplativa penso nisso, é como se sentisse que vivo no coração do oceano, rodeada de água e com um sentimento muito bom de ter a sorte de poder contribuir para honrar uma devoção tão bonita e tão genuína que a madre Teresa da Anunciada iniciou e que hoje se mantém tão viva”, diz ainda a religiosa que lidera a comunidade de três religiosas, todas da América Latina.

“Peço muito a intercessão da madre Teresa para que faça renascer este amor à Eucaristia e à oração entre todos os peregrinos” adianta sublinhando que “só assim conseguiremos chegar ao Senhor Santo Cristo e ganhar intimidade com Ele”.

Dentro do Convento ainda se respira o silêncio mas os preparativos para a festa já começaram.

“Depois de dois anos, já se sente o brilho nos olhos das pessoas e o sorriso por haver festa. E nós já começámos a prepará-la com as limpezas e a colocar o que há de melhor para acolher os nossos hóspedes, todos aqueles que vêm à festa” adianta a religiosa que não esconde a expectativa de ver tudo.

“É a primeira vez e por isso por mais perguntas que faça e que me respondam, na verdade só quando viver a festa é que vou saber mesmo como ela é”, diz.

“Será uma grande festa de acção graças; até lá continuamos na nossa missão: oração, silêncio, recolhimento…”, ao jeito da fundadora da devoção, sublinha.

“Madre Teresa da Anunciada é uma mulher muito influente e muito esclarecida e uma mulher muito avançada para o seu tempo…Poder continuar o seu trabalho é muito interessante” refere.

Os pedidos de oração e as mensagens já começaram a chegar de uma forma mais intensa; “é uma média de 50 pedidos por dia” desde uma abordagem no final da missa, a um telefonema, a cartas, a bilhetes. São sobretudo pedidos de “cura de doenças graves”, mas também de situações familiares complicadas ou de dinheiro, refere a religiosa.

“A fé é muito abrangente; ainda mais forte por parte dos que estão fora, lá longe”, destaca ainda.

“Aqui passam milhares de peregrinos que entram e saem da igreja; há pessoas que começam o dia aqui e acabam-no aqui, primeiro com um pedido de intercessão depois com outro de acção de graças e louvor. É uma manifestação de fé muito bonita”.

“Só espero que nesta festa possamos todos fazer a experiência de um verdadeiro encontro com o Senhor, que é o Bom Pastor”.

Com a imagem mais perto da grade, para aproximar os peregrinos, não há ninguém que entre na Igreja que não Lhe dirija uma prece.

“É impossível não gostar de estar ao pé do Senhor Santo Cristo, pedir a sua proteção e agradecer todas as bênçãos que nos dá” refere Maria, uma peregrina diária deste lugar.

“O Senhor Santo Cristo é sempre o mesmo mas quando cheira a festa parece que fica mais alegre” refere ainda.

“Em termos de preparação, como ainda vivemos no rescaldo da pandemia, há menos gente a trabalhar e as irmãs serão mais observadoras. Julgo que na terça-feira que precede as festas, propriamente ditas, a movimentação vai começar a ser maior” revela Rui Pacheco que espera que haja muitos turistas, sobretudo emigrantes açorianos da diáspora.

Trabalha no santuário há 14 anos e está entusiasmado com o regresso da festas, depois de dois anos sem peregrinos.

“O coro baixo terá uma ornamentação mais simples e menos elaborada, mas a festa será igualmente bonita. As pessoas estão ansiosas e se calhar vão superar muitos as expectativas”, avança este trabalhador que agora decidiu frequentar o curso do Diaconado Permanente que o Seminário de Angra iniciou este ano.

“Foi uma decisão que foi sendo adiada; estive a fazer caminho com os Jesuítas não correu como imaginava e agora surgiu esta oportunidade que aceitei”, refere ao destacar “que tem sido um momento de aprendizagem muito interessante”, conclui.

No adro os andaimes e o barulho das brocas não disfarçam os preparativos.

“Começamos com uma equipa de 22 pessoas que está a trabalhar todos os dias com um cronograma para colocar os enfeites e as lâmpadas. Ao todo serão pero de 105 mil e este ano a novidade vai para o embelezamento dos alçados e portas central, nascente e poente”, afirma ao Igreja Açores João Cabral, responsável pela iluminação.

“A segurança é a principal preocupação; depois temos o nosso lema: fazer tudo a tempo e horas de forma a ficar bonito” refere o responsável.

Como a saída da imagem é diferente este ano, as luzes do Campo vão ser acesas à passagem da Imagem do Senhor santo Cristo.

“É Ele que traz a luz da festa” referiu João Cabral, quase em jeito de metáfora.

“Vai correr tudo bem e temos fé, mas o corpo sempre treme uma coisinha; a maior felicidade será na sexta-feira quando acender tudo. É sempre um nervoso miudinho” desabafa.

A festa do Senhor Santo Cristo dos Milagres, na cidade açoriana de Ponta Delgada, vai regressar em maio, depois de dois anos de suspensão, devido à pandemia, anunciou a Diocese de Angra.

A imagem sairá para o adro da Igreja do Santuário logo na sexta-feira, dia 20 de maio, a partir das 21h00, coincidindo com a abertura das luzes no Campo de São Francisco, que durante o fim de semana se transformará num enorme recinto de oração.

O programa da festa prevê uma maior proximidade entre a Imagem e os peregrinos, “durante mais tempo e de uma forma diferente”.

O Santuário decidiu também alargar o número de Missas dos doentes e pessoas vulneráveis, começando na segunda-feira que precede a festa (16 de maio).

Durante as celebrações, a Imagem do Senhor Santo Cristo irá estrear uma capa, oferecida por um casal emigrante dos Estados Unidos, natural da Ribeira Grande.

O presidente das festas será o cardeal português D. José Tolentino Mendonça, arquivista e bibliotecário da Santa Sé.

A festa em honra do Senhor Santo Cristo dos Milagres é, a seguir ao Espírito Santo, a maior devoção dos açorianos, fazendo convergir, anualmente, no quinto domingo a seguir à Páscoa, milhares de fiéis para o Campo de São Francisco, em Ponta Delgada”.

Celebrado há mais de três séculos em Ponta Delgada, o culto ao ‘Ecce Homo’ terá começado no Convento da Caloura, em Água de Pau, concelho da Lagoa, São Miguel, passando depois para outras ilhas e para os principais destinos da emigração açoriana.

Guardada no coro baixo do Convento da Esperança, a imagem do ‘Ecce Homo’, que se estima remontar aos séculos XVI ou XVII, assim como o cetro, a corda, a coroa, o relicário e o resplendor, peças propriedade da Diocese de Angra do Heroísmo, é uma das mais veneradas pelos açorianos.