Por Monsenhor António Manuel Saldanha

Foi lançado na Diocese de Angra, um movimento eclesial de enorme relevância a que se dá o nome de caminhada sinodal. Pretende despertar de um certo torpor as nossas comunidades paroquiais, destrancar portas fechadas a realidades difíceis e incómodas e sobretudo dar novas motivações aos agentes da pastoral mais directamente envolvidos na missão de levar o Evangelho a todos os ambientes humanos.

O Concilio Vaticano II recordou ou melhor, confirmou e acentuou o imprescindível papel dos fiéis leigos na construção da sociedade e na sempre necessária atenção da Igreja às linguagens, sensibilidades e profundas aspirações que percorrem todas as artérias da cidade terrena.

A história da Igreja ensina que nada de decisivo foi por ela feito, sem o contributo dos féis leigos. Reconhecido ou não tanto, conforme as épocas, o seu papel foi sempre determinante. Desde as centenas de discípulos e discípulas que acompanharam Jesus e o acolheram, passando pelos que ocupando lugares de relevo no Império Romano, pelos protectores seculares das Ordens cistercienses e beneditinas e dando saltos epocais, chegando aos que depois das suas supressões contribuíram para a evangelização da Europa, o Evangelho se pronunciou não só com a tonsura e a túnica de monges missionários, mas sob o tecto familiar de milhares de homens e mulheres cujos afazeres iam desde artes as mais variadas ao comércio e ao cultivo das terras. Alguns organizaram-se em irmandades e confrarias, fundando orfanatos e hospitais e tudo o mais que pudesse concretizar as “obras da misericórdia”.

Muitos passos se deram até se chegar ao extraordinário movimento da Acção Católica. Um verdadeiro caleidoscópio de missões desenvolvidas em ambientes tão diferenciados como o podem ser uma Universidade e uma fábrica, uma escola e o trabalho dos campos, garantiram ali a presença da Igreja milhares de homens e mulheres, que sem os votos monásticos ou promessas sacerdotais, viveram o seu baptismo e aprofundaram a sua fé com a trilogia do ver, julgar e agir.

Outros Movimentos eclesiais nasceram durante e após o ultimo conflito mundial. Marcados pelas suas consequências, conhecendo de perto os seus horrores e inspirados pelo Espírito Santo, homens e mulheres com diferentes carismas deram corpo a espaços de estudo, de oração e de acção no corpo da sociedade levando o Evangelho para lá dos púlpitos onde ontem era escutado.

Pode-se quase dizer que a manhã de Pentecostes ainda não entardeceu.

Seguramente há muito a fazer ou a refazer. Todos sentimos que precisamos de convocar mais e novos operários para a evangelização. Os nossos bancos das igrejas e das salas onde reunimos os fiéis empenhados estão cada vez mais espaçosos e frios. Cada vez menos pessoas os ocupam. Infelizmente quando parte para a vida eterna um homem ou mulher que viveram o compromisso do Evangelho, raramente se consegue que depois do toque de finados se oiça outro a anunciar o nascimento de novos evangelizadores.

Trabalhamos cada vez mais com “reservistas” e cada vez menos com “recrutas”, perdoe-se lá a terminologia militar.

O “borralho” ainda está quente, mas tem de ser soprado. Muitos jovens vivem a experiência da piscina de Siloé. Experimentam um profundo desejo de agir, de intervir, de dar um contributo válido. Pressentem que a sua vida pode ir além das sebentas e do que são as expectativas pouco arrojadas que os adultos lhes reservam frequentemente. Mas não encontram lideranças. Há demasiada luz escondida sob as almotolias.

É urgente que a chama do Evangelho passe para novas gerações quando ainda correm na pista os velhos estafetas.

Nesta passagem de testemunho os presbíteros têm uma responsabilidade incontornável. Animadores das comunidades eclesiais por inerência do carisma do sacramento recebido, merecemos e precisamos de sentir o ardor do Pentecostes. Para alguns de nós o apelo é sair do “cativeiro da Babilónia” que nos condena a exílios sem ultrapassarmos o próprio recinto da paróquia e que nascem da dúvida e do medo do insucesso. Libertar-se dos erros da estrada percorrida e arriscar de novo. Aceitar que tentar o sonho é errar muitas vezes. Só quem vive sonâmbulo é que não comete erros, a não ser o da omissão que leva à esterilidade.

Uma das primeiras imagens da Igreja que encontramos nos escritos dos seus primeiros séculos é a de uma torre em construção. Somos parte de um estaleiro vivo e em azáfama permanente inspirados num grande projecto pelo qual o “projetista” deu a sua vida. Não importa o rosto, o nome e as qualidades e fragilidades de cada operário, mas a sua tarefa e o objectivo final. Perder o entusiasmo e interromper os seus trabalhos é silenciar a voz de Deus e favorecer os operários de Babel.

A caminhada Sinodal pode levar-nos a um Pentecostes nestas ilhas. A viver uma manhã onde os dons de cada qual são acolhidos e postos ao serviço da comunidade, onde se procure menos ser conhecido e dar-se a conhecer, para dar lugar a Jesus e à construção da sua comunidade de irmãos.

Provavelmente uma renovada dinâmica missionária poderá criar as pontes que faltam às nossas ilhas, aproximando realidades separadas pelo mar, convocando os carismas de cada um e acolhendo diferentes modos de viver uma cultura e uma fé comuns.