Por Carmo Rodeia

O Mundo está a ficar perigoso. Não é minha intenção alarmar nem falar de medo, sentimento que nos impede de arriscar e de sermos ousados sobretudo no amor, afastando-nos tantas vezes de Deus e dos outros.

Acordei com um texto do Observador que me deixou ainda mais sobressaltada com sinais que confirmam aquilo que há muito (sobretudo desde a vitória de Donald Trump nos Estados Unidos mas também com o crescimento das direitas nacionalistas e populistas na Europa) se vem afirmando de que as semelhanças entre os nossos dias e tempos passados, de má memória, são por demais evidentes.

O National Intelligence Council, grupo de estudos oficial norte-americano, alerta que a Rússia e a China querem “desafiar” os EUA e que isso levará o risco de conflito perto dos níveis da Guerra Fria.

O órgão público norte-americano lança este estudo de quatro em quatro anos e o seu objetivo é avaliar o futuro da segurança a nível global. Neste que foi dado a conhecer esta terça feira, alerta para o crescimento dos populismos políticos e diz que nos próximos cinco anos riscos de conflitos entre estados vão subir a níveis que não eram vistos desde a Guerra Fria.

A conclusão parte dos “choques” da Primavera Árabe, da crise financeira de 2008 e do atual crescimento de partidos ou de políticos com tendências populistas, potenciados pelo “progresso” a nível da tecnologia, que permite “ligar as pessoas” e “fortalecer indivíduos, grupos e estados”, leia-se redes sociais.

“O progresso das últimas décadas é histórico”, lê-se no relatório. Porém, os referidos “choques” são a prova do quão “frágeis esses feitos têm sido, enfatizando mudanças profundas na paisagem global que apontam para um futuro próximo negro e difícil”.

Para o National Intelligence Council, o atual status quo global está a “trazer o fim de uma era de domínio americano que se seguiu à Guerra Fria” e que, como consequência, “será muito mais difícil cooperar internacionalmente e governar da maneira como os cidadãos esperam”.

O relatório diz que nos próximos cinco anos a China e a Rússia estarão “fortalecidos” e que, perante a “incerteza” dos EUA (pudera!) e uma “erosão das normas para a prevenção de conflitos e dos Direitos Humanos” levará aqueles dois países a “desafiarem” a influência dos EUA.

Sobre o terrorismo, o National Intelligence Council aponta para uma expansão e também uma atomização de grupos extremistas a longo prazo. E, sobre os fluxos migratórios- os maiores dos últimos 70 anos- diz trazere consigo “o espectro do esgotamento dos cofres da segurança social e de maior competição no mercado laboral” ao mesmo tempo que aumentam “os impulsos nativistas e anti-elitistas”. Colocados ao lado de economias de crescimento quase nulo, esta realidade pode resultar em “tensões entre países” e no “fortalecimento do mesmo nacionalismo que contribui para essas tensões entre os países”.

No primeiro dia deste ano que agora começa mas que já cheira a bafio, de tantas semelhanças com o passado, o Papa Francisco lembrou que este ano seria bom na medida em que cada um de nós, com a ajuda de Deus, procurasse fazer o bem dia após dia. E pediu aos líderes políticos que se unam para combater a “praga do terrorismo”.

Depois de ter criticado a “orfandade espiritual” entranhada na sociedade – “um cancro que silenciosamente corrói e degrada a alma” e que surge quando não existe “o sentido de pertença a uma família, a um povo, a uma terra, a Deus” – Francisco pediu a Deus que apoie todos os homens de boa vontade para arregaçarem corajosamente as mangas para confrontar a praga do terrorismo, esta mancha de sangue que cobre o mundo com o seu manto de medo e um sentimento de perda.

A fé é uma luz que ilumina o coração e faz ver as coisas com outra luz. Não é um jogo de palavras mas uma constantação. A bondade do coração de Deus deve ser imitada por todas as pessoas de boa vontade, mas sobretudo pelos cristãos. Se somos tantos, em todo o mundo, porque não conseguimos fazer melhor?

Há muitos anos que a igreja nos pede oração, conversão e misericórdia. O pedido mantem-se… e é urgente para que cada um faça um pouco melhor, como nos desafia o Papa.