Por Renato Moura

As notícias de que a pobreza infantil nos Açores aumenta e é pior que a média nacional, e de que a capitação média por açoriano pobre é de 50 euros, não nos podem deixar indiferentes.

A pobreza não leva apenas a que as pessoas passem fome, ou sejam privados de bens ou comodidades essenciais, como por exemplo o vestuário adequado, a electricidade e o gás. A pobreza é geradora de complicações no presente, nomeadamente por afectar em grande escala e sobre variados aspectos os jovens, mas habitualmente acarretar também conflitos de convivência familiar e não só.

A pobreza entristece, gera humilhação e deixa marcas para o futuro.

Infelizmente o número de pobres conhecidos aumenta constantemente, não só em número, como no origem e na condição social, mas sabe-se que há muitos que se escondem por detrás da vergonha e os quais só uma boa cadeia de solidariedade pode descobrir e apoiar.

Vive-se uma situação artificial, pois que o RSI e os programas de ocupação temporária vão disfarçando algumas situações. Verdade é que, não se criando emprego duradouro, a situação desses beneficiários é uma ilusão; é melhor que nada, mas não é solução. Os governos têm de criar condições para o desenvolvimento económico e os empresários têm de ter consciência social.

Atente-se que o Papa Francisco recentemente nos fez lembrar que há quem se sinta rico e é levado “a utilizar a riqueza e o poder, não para servir a Deus e aos outros, mas para sufocar em si mesmo a consciência profunda de ser, ele também, nada mais do que um pobre mendigo” e “quanto maior for o poder e a riqueza à sua disposição, tanto maior pode tornar-se esta cegueira mentirosa”.

Entretanto sentimos as instituições de solidariedade social cada vez mais sufocadas pela impossibilidade de socorrerem a todos quantos necessitam, seja pela falta de agentes ou de meios.

D.João Lavrador, ao referir-se à Cáritas, foi bem claro e oportuno a realçar que temos necessidade “de nos comprometermos mais na resolução dos seus projectos e contribuindo para as suas iniciativas em favor dos mais necessitados”.

As declarações dos dignitários não podem ser levadas pelo vento, mas devem frutificar nos responsáveis políticos, nas instituições e nas pessoas em geral, principalmente naquelas que acreditam que aquilo que fizerem aos mais desgraçados, estão a fazê-lo a Deus.