Por Renato Moura

Os católicos nutrem uma grande simpatia e admiração pelo Papa; pelo que diz, pelas atitudes exemplares, pelas reformas que visa. Merece respeito de outras religiões e até de cidadãos sem credo.

A tradição antiga de reconhecer ao Papa uma autoridade inquestionável e suprema, tem-se toldado. A surpresa não está em quatro cardeais questionarem o Papa, mas especialmente em trazerem para a praça pública posições que indiciam confronto directo quanto à Exortação Apostólica “Amoris Laetitia”. O que porventura não constituiu espanto é que essa luta contra o Papa tenha sido encabeçada pelo Cardeal americano Raymond Burke, uma personagem que saudou a eleição de Trump e considerou aceitável que este queira construir muros e fechar portas à emigração!

O Sumo Pontífice quer que a Igreja viva como viveu Jesus, que perdoou aos pecadores. Francisco busca em tudo o rumo de Jesus. Por isso defende também que os divorciados recasados e outros marginalizados não permaneçam para sempre sem perdão. Tenha-se em conta que o prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé considerou que a Exortação “é muito clara em termos doutrinais”.

Uma assumida resposta à “inquietação” dos cardeais conservadores foi dada pelo teólogo José Maria Castillo em artigo no Religion Digital, em 16.11.2016, afirmando que “nenhum documento doutrinal do magistério da Igreja definiu como «doutrina de fé divina e católica» a indissolubilidade do matrimónio cristão” e “tudo o que se fala sobre este assunto pertence ao âmbito disciplinar, não dogmático” e ainda “corresponde ao poder disciplinar do Papa decidir se as pessoas divorciadas e recasadas podem ou não comungar”.

Não se duvida que Francisco sofra ao sentir que há clero que procura impedir a reconstrução da Igreja que o Papa pretende levar a cabo na interpretação sincera que lhe compete e faz dos ensinamentos misericordiosos de Jesus. O Pontífice patenteia com evidência: Abertura quanto às críticas “quando não há um espírito maledicente, elas também ajudam a caminhar”; frontalidade perante críticas “aqui e ali como justificativas para uma posição já tomada” e quando “não são honestas, são feitas com espírito mau para fomentar a divisão”; Serenidade ao confessar que ante as críticas “eu não perco o sono”; Firmeza na promessa de “continuar no caminho daqueles que me precederam, sigo o Concílio”; Coragem para assumir que a Igreja “não é um caminho de ideias ou uma ferramenta para afirmá-las”; Inspiração divina firmada em que “a Igreja é o Evangelho, é a obra de Jesus Cristo”.