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Por Renato Moura

Ficámos muito contentes quando vimos os nossos – crianças e não só – a adquirirem hábitos benignos, fossem eles de higiene, de comportamento social, de trabalho e tantos outros facilitadores de boas práticas: são os chamados bons hábitos. Certamente todos nós, pelo menos nalguma fase da vida, adquirimos maus hábitos, como nos esforçámos por eliminá-los.

Os hábitos resultam de repetições frequentes, muitos adquirem-se de forma inconsciente. Valerá a pena pensar se nos habituámos a coisas erradas, que de tanto repetidas, até parecem um costume adquirido e aceite; ou se perante velhos hábitos já nem se estranha.

Será que um Presidente da República, por sempre falar muito, acerca de tudo e até demais, transforma a prática num bom hábito? Os tribunais andarem ancestralmente devagar é um bom costume? Se um parlamento legisla a favor da morte de crianças antes de nascerem e do direito a doentes em fim de vida se matarem ou serem mortos, é hábito tolerável poderem fazer todas as leis que quiserem? Será que se pode tornar rotina aceite que um 1.º Ministro só responda na Assembleia da República àquilo que quiser?

Um mau governo, por nos habituar a se vangloriar repetidamente de alguns feitos, passa a ser verdadeiramente bom? É um bom costume os governos considerarem que não erram se os anteriores fizeram igual ou pior? Dever-se-á tomar como bom hábito que os ministros se desculpem recitando, tal qual o chefe, que “não se pode dar o passo maior que a perna”?

Porventura os confrontos físicos podem considerar-se um hábito tolerável nos campos de futebol ou nos gabinetes ministeriais? É de aceitar como bom costume que algum treinador de futebol louve e defenda sempre os seus jogadores e culpe os árbitros; ou que algum 1.º Ministro louve sempre os seus membros do governo e considere como suspeições e mentiras as opiniões contrárias?

Haverá tantos erros cujo uso, prolongado e generalizado, já tornou hábitos assentes aos quais se alude, usando e abusando deles para dar sumiço a desvios, a afastamento do que é eticamente correcto. O hábito guia e acomoda.

Todos deveríamos ter cuidado. Recordemos ensinamentos que nos legou Cícero: “Não há nada de tão absurdo que o hábito não torne tolerável” e “O hábito de tudo tolerar pode ser a causa de muitos erros e muitos perigos”.

Que o Divino Espírito Santo, que ora se festeja, não seja por hábito, mas com fé. Que Ele ilumine a todos; e neste momento, de forte degradação da situação política, especialmente a quem procura realizar o bem e descobrir a verdade.