Pelo Padre Hélder Miranda Alexandre

No “tempo das Igrejas vazias”, temos a noção clara de uma mudança de época e não somente de uma época de mudança, como se afirma em certos ambientes. A situação pandémica acelerou este processo. Sentimos a fragilidade de tantas propostas que pareciam funcionar. Não é fácil encontrar soluções, mas o trabalho tem de ser corajoso e será árduo.

Como afirma o psicólogo Achille Orsenigo, em mudanças epocais não é suficiente resistir e não tem sentido falar em resiliência. Requer-se capacidade de regeneração. Não se trata de pessimismo, é a natureza das coisas. A crise reclama a precariedade daquilo que é humano e somente se ultrapassa pela capacidade de regeneração. É tempo de propor respostas inovadoras e não repetições estéreis. É tempo de decidir. Não significa cortar com o passado, mas propor elementos de descontinuidade, de oportunidades que a crise nos aflora, mesmo timidamente.

O Papa Francisco recorda-nos diversas vezes o risco de transformar certas realidades em museus cinzentos, sem beleza e sem paixão: é a psicologia do túmulo, que apaga e mata os pequenos gérmenes de vida. “Mais do que o temor de falhar, espero que nos mova o medo de nos encerrarmos nas estruturas que nos dão uma falsa proteção, nas normas que nos transformam em juízes implacáveis, nos hábitos em que nos sentimos tranquilos, enquanto lá fora há uma multidão faminta e Jesus repete-nos sem cessar: «Dai-lhes vós mesmos de comer» (Mc 6, 37)” (EG 49).

Abrir os arquivos, escancarar as portas, deixar de se olhar ao espelho, dar espaço e atenção ao que vem do povo, da estrada, do ordinário, são as atitudes que para o Papa constituem o coração da experiência sinodal. Um caminho ainda pouco amadurecido entre nós. Trata-se de uma ocasião, não para repetir fórmulas antigas, mas para assumir um estilo novo que saiba renovar o modo de ser Igreja.

Este “caminhar juntos” é uma oportunidade única para uma experiência de relações generativas onde o centro não é um sujeito fechado em si mesmo, mas um “nós” que traz em si a necessidade de alteridade. Se este processo for levado a sério teremos movimento, imprevistos, precariedade, quedas inevitáveis. Quem gera não conhece o resultado. Por isso, à maneira da fragilidade de um ser nascente, é útil aprender a cuidar do novo com paciência e confiança.

Há que dar lugar a algumas prioridades. Não acredito em planos extensos, muito bem aprimorados e pensados. A realidade não é assim. Não cabe facilmente em esquemas. Prefiro metas simples, poucas, mas levadas a sério, que sejam práticas e cheguem aos últimos do rebanho. Há que investir em conhecimento e escuta da realidade. Isso não se faz de cima para baixo. Cada comunidade tem de começar por aí. É essencialmente um trabalho das bases. Aprender a não ver as coisas em modo repetitivo, mas aceitar as perguntas incómodas, as pequenas e grandes provocações, os pequenos planos de descontinuidade. A semente, mesmo pequena, consegue romper a dura terra. Há que promover relações de confiança. Os organismos e instituições da Igreja requerem estima e mútua inter-ajuda. Há que dar lugar a emoções quentes e coragem. As emoções podem ser diversas, podem existir medos e incertezas, mas também sonhos e esperanças. Estamos cansados de velhos lamentos “somos poucos… não conseguimos… outros que façam…. já sou velho… sempre se fez assim”. Ter coragem (cor-habere) é ter coração. É o antídoto da mediocridade, a capacidade de avançar, de dar espaço aos sonhos mais lindos que cada um tem. Uma organização torna-se corajosa quando sabe descobrir o motivo pelo qual existe, relançar o que a fez nascer.

Dar novos frutos só é possível na intimidade com a “verdadeira vide”. Somente essa identidade nos levará a uma autenticidade evangélica, que é radicalmente qualitativa. Seremos capazes de viver na lógica da profecia, de arriscarmos em comunidade? Teremos coragem, coração, liberdade e visão necessárias?